O TEMPO NÃO PARA: um discurso para mentes congeladas

Família Sabino Machado (Foto: Divulgação TV Globo)

Quem dá boas-vindas também tem que se despedir, não é mesmo? É assim, então, que faço as honras com a novela da mesma forma com que a acolhi, escrevendo. Quando lançou, “O Tempo Não Para” tinha um grande trunfo ao seu favor: a inovação. Pessoas que passaram 132 anos congelados e chegam em pleno século XXI. Doido, né? Sim, muito. Mas, mais doido ainda é descobrir que, mesmo com tanta novidade, há realidades e há padrões que teimam em não desaparecer. “Agora os negros são livres e respeitados” – será que são? “As mulheres têm os mesmo direitos que os homens” – será que tem? Só por nos fazer pensar nisso, a novela já merece um muito obrigado.

Em se tratando do “drama dos congelados” podemos dizer que a trama cumpriu o prometido, girando em torno de suas dificuldades de adaptação, suas conquistas e, para alguns mais uma vez, a luta para se livrar da ganância, desta vez da ciência.

O “Tempo Não Para” girou em torno de pessoas. E da nobreza que existe em cada uma delas. Da sutileza com que senhor Elizeu (grande Milton Gonçalvez) prepara o seu café, todas as manhãs. Na força com que Cesária encara o mundo. No respeito que Samuca tem pelas pessoas.

Um roteiro congelado

Mas, nem só acertos sobreviveu a obra de Mário Teixeira. Vimos, com o passar de cada dia, um roteiro mais congelado que os personagens, e atores (grandes atores) pouco explorados durante a trama: Cris Vianna e Marcos Pasquim são exemplos disso. Sem falar na vilã Betina (interpretada por Cléo Pires) que viveu a novela toda a sombra de pequenos espaços, sendo no final, engolida por Mariacarla (papel de Regiane Alves).

Em compensação aos “furos” tivemos a felicidade de encontrar uma ótima química no casal principal. Juliana Paiva (que confesso que já era a menina dos meus olhos há um tempo) segurou muito bem o protagonismo na parceria com Nikolas Prates (ator que também vem conquistando). O casal teve muita química e não deixaram seus personagens cair na mesmice.

Cereja do bolo do último capítulo: ver Marocas conhecer sua verdade idade, 132 anos (nem preciso dizer que isso rendeu muitos memes).

(Foto: Divulgação TV Globo)

Como diz Dom Sabino “tudo acaba bem, quando termina bem”. Que “O Tempo Não Para” tenha vindo para, além dos 13 tripulantes, descongelar muitas outras mentes. É o que desejamos.

Texto por

Mariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente). 

O Sétimo Guardião: O realismo fantástico do século XXI

Aguinaldo Silva é um autor de novelas extremamente experiente, um dos mais importantes da sua geração. Foi um dos responsáveis por continuar experimentando e testando novidades, permitindo que a telenovela brasileira continue sendo uma referência tal qual ela é hoje. Entretanto o gênero não é mais absoluto no país e muitos telespectadores migraram para outras narrativas audiovisuais, especialmente as séries. Aguinaldo é um profissional atento às tendências de mercado. Inclusive em sua entrevista ao livro “Autores” da TV Globo de 2008, ele já cita série americanas, como Grey’s Anatomy e Família Soprano, como fontes de inspiração e estudo.

Longe das novelas desde Império (2014), o novelista foge completamente da curva das tramas realistas e urbanas vistas na faixa das 20h/21h nos últimos quinze anos e retorna ao realismo fantástico em O Sétimo Guardião. Fiquei animado ao saber que seria resgatada uma característica que marcou suas telenovelas nos anos 1980 e 1990, entretanto ao terminar de assistir o capítulo pelo Globoplay, senti que não vi aquilo que esperava. Entretanto isso não significa que isso seja ruim, muito pelo contrário. Evidentemente que existia uma expectativa de um envelopagem semelhante a de Tieta (1989) e, principalmente, de A Indomada (1997), mas o que nos foi entregue foi um amadurecimento da fórmula, agora bebericando em novas referências, principalmente de séries, como Stranger Things (como citado no texto de Nilson Xavier). A repaginação do realismo fantástico é intencional, pois obviamente ele ainda trará os tipos clássicos (como a beata, a cafetina, o padre, o prefeito etc) para poder fisgar o cativo público, mas ele aprofundará o elemento misterioso através dos guardiões e do gato León para poder trazer um novo telespectador, que está entretido com os seriados. Essa atualização vem com o avanço dos recursos tecnológicos, que permitem que cenas como a da mão saindo da xícara sejam mais realistas e bem feitas, além da própria evolução da própria telenovela brasileira, que está cada vez mais esteticamente próxima com o cinema, pois se utiliza de iluminação, enquadramentos e movimentações de câmera ainda mais refinados.

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Marina Ruy Barbosa em cena de “O Sétimo Guardião” (foto: reprodução/TV GLOBO)

Diferente dos apoteóticos primeiros capítulos de suas antecessoras, Segundo Sol O Outro Lado do Paraíso, que foram repletos de acontecimentos, que inclusive davam um falso ritmo frenético a trama, aqui em O Sétimo Guardião, Aguinaldo e o diretor Rogério Gomes abrem mão desse recurso, pois sabem que isso facilmente se esvazia nos capítulos seguintes. Por tal escolha, é possível que tenha ocorrido um estranhamento do público em relação a velocidade dos acontecimentos, afinal as cenas eram mais longas para poder criar a atmosfera de suspense e de terror. Por mais que toda essa estética parecesse de filme, ainda os recursos narrativos melodramáticos lá estavam presentes, como o casamento de Gabriel (Bruno Gagliasso) que não ocorreu, o trauma em relação ao abandono no altar da vilã Valentina (Lília Cabral), o ódio do pai da noiva Olavo (Tony Ramos), entre outros clichês dos folhetins. O casal de protagonistas formado por Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa ainda está se formando, até mesmo pela própria narrativa, pouco se viu deles, até mesmo de seus desafios, mas a cena final em que ela o desenterra foi uma maneira bem fora dos padrões de apresentar o casal de mocinhos juntos. Realmente algo bem inesperado, mas divertido e mostrando sim, que os folhetins eletrônicos podem escapar de seus clichês.

Como toda narrativa de realismo fantástico, o humor estará presente nos personagens secundários, sendo os responsáveis por trazerem a parte solar da narrativa. Neste primeiro capítulo, destaco a personagem de Letícia Spiller, Marilda. Com um sotaque formado de diversas regiões do país faz com que a diferencie dos demais personagens, além de seu estilo espalhafatoso, que obviamente entrará em conflito com a irmã Valentina. Falando em diferenciação, senti falta de alguma característica que demarcassem os personagens como moradores de Serro Azul, um sotaque que unisse todos, por exemplo, ficou faltando. Não digo incorporar um sotaque de alguma região específica, mas sim, ser criada uma pronúncia que estivesse na boca dos personagens, como o caso das palavras em inglês nos personagens de Greenville de A Indomada. 

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Bruno Gagliasso no final do primeiro capítulo (foto: reprodução/TV Globo)

O charme estético e o ar misterioso da trama são os principais chamarizes da trama. Quanto a história central, ainda é cedo para afirmar, afinal o foco do primeiro capítulo ficou na questão do surgimento do novo guardião. Entretanto a desistência do casamento de Gabriel soou fraca, pois ficou apenas na aparição do gato. Talvez precisássemos de mais tempo para ver a evolução dessa tomada de decisão do protagonista. Entretanto as tramas paralelas devem ser bem exploradas e parte delas já foram apresentadas, o que eu considero ser um ótimo sinal.

O Sétimo Guardião será uma homenagem e retomada ao realismo fantástico, agora repaginado. O autor convida o telespectador a embarcar em suas alegorias e crossovers com outras novelas, para que fuja da realidade e se deixe levar pelos mistérios dos guardiões. Veremos!

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Os guardiões (foto: reprodução/TV Globo)

Orgulho e Paixão: as vozes de quem resiste

Orgulho e Paixão chegou ao fim e deixou um monte de gente com o coração apertado. Sem grandes mistérios e reviravoltas, a novela conquistou o público exatamente pelo seu clima leve e descontraído, digno do horário das 18 horas. O trio Fred Mayrink (diretor), Marcos Bernstein e Victor Atherino (autores) têm do que se orgulhar. Inspirada em algumas obras da autora Jane Austen, a novela foi além e manteve a luta feminina forte e representativa do começo ao fim. Para momentos de firmeza, não temeu o horário e chamou atenção para a violência contra a mulher. Em momento leves, trouxe à telinha dois musicais, que surpreendeu e encantou o público. De tantas histórias, de tantas vozes, deixo aqui, cinco destaques da novela (mas conseguiria citar dez sem muitos esforços):

 

 

A história de Mariana

No início, a história da menina que precisou se vestir de homem para pode andar de motocicleta e competir (só era aceitável que homens fizessem isso) parecia um mero clichê, usado e abusado em diversas obras. Gil já premeditou: “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria…”. Mas o disfarce de Mário durou o tempo que ela julgou necessário para ganhar a própria confiança na motocicleta e ganhar a corrida. Inclusive, cena em que ela revela ser mulher. Poderosa. Corajosa. Intensa. Assim como a cena em que é agredida por um homem, e tem seus cabelos cortados. Assim como a cena em que revela o abuso e assume seus cabelos curtos (incomum para a época). Mariana existe pelo Brasil afora. Mas em Mariana também existe Chandelly (Braz, a atriz que deu vida à personagem). E Chandelly mais uma vez se mostrou grande.

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Mariana como Mário (foto: Divulgação/TV Globo)

 

A força de Julieta

De vilã a uma das personagens mais amadas da novela. Julieta foi a maior surpresa, a maior descoberta. Quem, no início da trama a via de roupas pretas, fechadas e com o ar de desprezo, jamais imaginaria que, tudo isso, era fruto de um abuso, ainda menina. De um só não, de vários. Já que teve que casar com o estuprador. Como ela mesma se classificou (em uma cena com Mariana), Julieta pertence ao grupo das sobreviventes, e viveu inúmeras cenas dramáticas durante a novela (principalmente quando conta para seu amado Aurélio e para o filho Camilo, tudo que sofreu). Mas Julieta encontrou no amor o recomeço. E descobriu que falar, ajuda. Que denunciar é necessário. Julieta não sabe, mas até hoje as mulheres precisam de força até para denunciar. Julieta existe porque Gabriela Duarte também existe, e merece todo o mérito.

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Julieta em cena de “Orgulho e Paixão” (foto: divulgação/TV Globo)

 

Inúmeras e únicas: as irmãs Beneditos

Desde o começo da novela, dona Ofélia (vivida pela grande Vera Ortiz) sonhava só com uma coisa: que suas filhas casassem. O que ela não imaginava é que suas meninas viveriam muito mais que isso durante a suas trajetórias. Dentro das cinco “beneditos” havia mulheres fortes, destemidas, curiosas, desbravadoras e também, doces. Tenho certeza que cada telespectadora se reconheceu em alguma, ou em muitas delas.

 

A força pelo trabalho

Teve quem sempre desejasse trabalhar, como Elisabeta. E também teve quem nunca se viu trabalhando, como Ema. Mas teve também aqueles que, do começo ao final da trama, fizeram do trabalho a força motriz de sua vida, como Mariko e Januário. Descendente de japoneses, Mariko era uma das poucas mulheres médicas e sofria inúmeros preconceitos por conta do gênero e também por sua origem. E Januário, descendente de pessoas que foram escravizadas, o pintor lutou muito para que além de sua cor, sua profissão fosse respeitada. Ambos finalizaram a novela como os grandes vencedores merecem.

 

#LUTÁVIO

Além do feminino, Orgulho e Paixão ainda tem outra marca: protagonizou o primeiro beijo gay no horário das 18 horas. A gente se alegra, mas sabemos que isso já devia ser “regra” há muito tempo. #Lutávio (nome criado pelos fãs do casal) encantou o público com a sensibilidade de seus personagens e modo com que cada um deles foi sendo vencido pela força do amor.

 

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Casal Lutávio, como apelidado pelos fãs nas redes sociais (foto: divulgação/TV Globo)

DIVULGAÇÃO/GLOBO

 

Em uma mistura entre o mau e o cômico, eu não poderia deixar de citar o prazer que tivemos de conhecer a bela dupla que Alessandra Negrini e Grace Giannoukas formam juntas. Do primeiro ao último capítulo, elas não perderam o fio e nos levaram aos risos, em meio ao ódio (mas, será que a gente odiou elas mesmo?).

Talvez Orgulho e Paixãonão seja e não se torne uma das novelas mais marcantes do horário das 18h. Tristeza maior é que esse horário não seja tão “famoso” quanto o das 21 horas. Mas, mesmo assim, concorre com força a melhor novela do ano. Em tempos de tanta luta das mulheres, a novela veio em um importantíssimo momento.

 

“Aqui, no Vale do Café (…) temos mulheres que, mais do que serem aquilo que supostamente nasceram para ser ou fazer, são o que querem ser…”

Elisabeta Benedito

Autora do texto:

Mariana VirgílioMariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente).

 

Primeiro Capítulo: E se você viesse do passado?

Imagine a seguinte coisa: e se você acordasse e simplesmente não soubesse sobre a abolição da escravatura, não soubesse que o homem pisou na Lua, não conhecesse televisão, internet, celular, não conhecesse carros e aviões? Resumindo, e se você dormisse por 132 anos? Como você reagiria a todas essas novidades? Essa é o questionamento que a nova novela das 19h está aí para te fazer.

 

“Então isso é o futuro?” – Marocas.

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Elenco de “O Tempo Não Para”. (foto: divulgação/TV Globo)

A história de Mario Teixeira (autor de Liberdade, Liberdadee I love Paraisópolis) e direção geral de Marcelo Travessos, tem como tema principal a família Sabino, que é congelada por 132 anos, e acorda em plena cidade de São Paulo, em 2018. Os integrantes desse grupo são: o pai, Dom Sabino, a mãe, Dona Agustina, as filhas Marocas e as gêmeas Nico e Kiki, e os empregados da família: Miss Celine, Menelau, Damásia, Cairu, Bento, Cesária, Cecílio, Teófilo e o cachorro Pirata.

 

“Que abolição é essa que um homem da sua estatura tem que vasculhar o lixo para comprar um pedaço de pão?” – Dom Sabino.

 

O primeiro capítulo

Neste primeiro capítulo conhecemos a família de Dom Sabino e principalmente, o temperamento compreensivo, mas forte da primogênita, Marocas. Espevitada, a menina arruma uma baita confusão: no dia do seu baile de apresentação é vista nua (para nós, os contemporâneos, com uma camisola, quase um vestido longo) por Bento – um recém-formado em direito e poeta revolucionário.

Para livrá-la da desonra, Dom Sabino incentiva a filha a se casar com Bento, mas ela recusa e é nesse momento que eles têm a emocionante conversa:

 

“O senhor fez de mim o filho homem que sempre quis ter. Respeite-me, meu pai, porque eu sou o que o senhor fez de mim.” – Marocas

 

Como uma segunda alternativa, Dom Sabino resolve viajar com a família, para que com o tempo, toda a comunidade se esqueça do acontecido com a filha. E é nessa viagem que ocorre o inesperado: o navio para por uma turbulência e afunda.

Como toda novela que se preze precisa de uma romance, em um salto para o século XXI, o bloco de gelo é encontrado no mar e os protagonistas têm seu primeiro encontro: o bloco de gelo de Marocas se solta e ela afunda, sendo regastada pelo empresário Samuca.

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foto: divulgação/TV Globo

Temática ousada

Com a mistura de romance e uma pitada de ficção científica, “O Tempo Não Para” aposta em uma história ousada, com adereços que fogem dos fatos considerados “reais” pela sociedade. Não que isso seja algo ruim, pelo contrário, é uma bela oportunidade de inovação e afinal, esse também é um dos objetivos de uma novela: transportar o telespectador para outra realidade e fazê-lo pensar sobre a vida, de inúmeras possibilidades.

O que se espera é que o autor não se perca pelo caminho, como aconteceu em outras tramas da emissora (exemplo, Tempos Modernos) que apostou muito mais alto do que poderia e a trama acabou sem nenhuma marca registrada.

Avante ao século XXI, família Sabino. Infelizmente, se olharmos detalhadamente, alguns conceitos ainda não mudaram tanto. Mas estamos tentando.

Autora do texto:

Mariana VirgílioMariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente).

 

 

Enfrentamento do machismo e homofobia familiar foram os condutores da narrativa de “Onde Nascem os Fortes”

Depois de 53 capítulos de “Onde Nascem Os Fortes”, finalmente foi revelado o responsável pela morte de Nonato, o personagem de Marcos Pigossi. O assassinato do irmão gêmeo de Maria, vivida brilhantemente por Alice Wegmann, foi a força propulsora para todos os acontecimentos da trama, muito além disso, o crime impulsionou o desenvolvimento das narrativas de personagens femininas extremamente fortes, como a própria Maria e de sua mãe Cássia, papel de Patrícia Pillar, que enfrentaram o machismo de um lugar árido e tomado pela violência. A falta de respostas vinda de uma polícia completamente corrupta e ineficaz fizeram com que mãe e filha partissem para ação, cada uma com as suas próprias armas.

Como o próprio nome da série diz, o sertão é um lugar onde nascem aqueles que são mais resistentes. O ambiente seco, dominado pelos poderosos homens da lei e das terras mandam mais, afinal é com eles que estão o dinheiro, as armas, os capangas. Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg souberam conduzir isso perfeitamente, mostraram tão cruamente ao telespectador como funciona a manutenção do sistema autoritário em um lugar tão pobre, onde os jogos de interesses financeiro e político prevalecem em detrimento de qualquer lei. Por meio dos personagens rivais interpretados por Alexandre Nero e Fábio Assunção, respectivamente, Pedro Gouveia e Ramiro, essa luta de interesses foi demonstrada, em boa parte da narrativa. Ambos tiveram condutas condenáveis, entretanto as camadas humanas do personagem de Nero foram se sobressaindo, muito pela carinhosa figura paterna que tinha, enquanto o juiz de Sertão só revelava cada vez mais seu pensamento autoritário e conservador.

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Maria e Cássia, mãe e filha, em “Onde Nascem os Fortes” (foto: divulgação/TV Globo)

Cássia e Maria são filhas do sertão, ambas enfrentam esses homens da forma como acham mais conveniente para vencer a guerra pela ausência de respostas. A mãe dos gêmeos foca na experiência e na articulação, enquanto a filha pela própria imaturidade da vida age de forma mais impulsiva. O jeito como cada uma escolheu entrar no jogo é legítima. Afinal as duas precisam encarar o mesmo fator em comum: o machismo. No conservador sertão, mulheres como elas não são bem-vindas, muito menos bem acolhidas, inclusive elas fazem um contraponto com Rosinete, esposa de Pedro vivida por Débora Bloch. Mesmo sabendo da traição do marido, a mãe de Hermano e Aurora era a mulher dedicada a família e a um casamento falido, que vivia apenas para isso e esquecia de si mesma. Com o passar dos capítulos, Rosinete passa a se conscientizar dessa sua situação e toma novamente as rédeas de sua vida. Essa transformação fica bem clara em conversa com o seu filho, onde ela afirma ainda ser uma mulher e que possui suas vontades, mesmo depois de muito tempo negando-as. É impossível negar a influência de Cássia e Maria nas mulheres do seu em torno, mesmo que indiretamente.

A postura arrojada de Cássia foi o que atraiu Ramiro. O juiz da cidade ficou encantado pela personalidade marcante e destemida dela, aproveitando deste trunfo, ela passa a se relacionar com ele, pois através do relacionamento sabia que conseguiria vantagens, como acessar com mais facilidade o processo do assassinato do filho, como o julgamento de Maria. Entretanto esse local é perigoso, afinal Ramiro é uma alegoria do machismo, não só por possuir o poder da força bruta, política e da bala, mas pelo seu jeito irredutível e controlador, de um típico macho alfa. O caso entre os dois é abusivo, ele controlava os seus passos, as suas atitudes e a cercava de todos os modos, até por isso a empregou dentro do forúm.

O comportamento machista dele não se resume apenas com Cássia, mas principalmente com seu filho, Ramirinho, interpretado bravamente por Jesuíta Barbosa. O filho é mais um contraponto na trama, afinal ele é o completo oposto do pai, homossexual e drag queen. Motivo de vergonha do pai, que não o aceita, com isso a relação dos dois é frágil, pois Ramiro impõe que o menino seja “macho” e “forte”. Já Ramirinho sofre, órfão de mãe, deposita no pai a esperança de aceitação e amor, entretanto o único sentimento presente na relação é medo. Foram diversas as cenas que debateram o tema da homofobia no âmbito familiar, mas foi como Shakira do Sertão que Ramirinho pode enfrentar o seu pai e se mostrar como é. Deixo como referência, a belíssima passagem em que ele canta montado na frente do fórum da cidade, assim deixando claro o seu posicionamento perante a sua própria vida.

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Ramiro e filho em “Onde Nascem os Fortes” (foto: divulgação/TV Globo)

Em uma jogada de mestre, os escritores conseguiram fazer mais uma associação de entre a história principal e o drama de Ramirinho. Em mais um contraponto, o mulherengo Nonato foi vítima de homofobia. Em diversos capítulos, Maria reforçava a imagem de galanteador do irmão, isso já era de certa forma uma deixa para o que viria acontecer. Nonato foi morto por estar na hora e momento errados, mas além disso, vítima da não aceitação de Ramiro que forçou seu filho a matar aquele rapaz inocente. Os autores deixaram claro: homofobia mata sem ver a quem e as suas consequências são incontáveis.

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Ramirinho em cena do último capítulo de “Onde Nascem os Fortes”. (foto: divulgação/TV Globo)

Poderia passar aqui horas e horas fazendo análise dos diversos perfis, todos muito ricos e repletos de contradições. Como poucas vezes visto, “Onde Nascem os Fortes” trouxe personagens repletos de camadas, onde todas as suas atitudes eram justificadas, mesmo as mais cruéis. A direção impecável e sensível de José Luiz Villamarim, associada ao texto sútil de Moura e Goldenberg com um elenco afiado fizeram com o telespectador voltasse o seu olhar as questões mais humanas, como aceitação, maternidade, envelhecimento, traição, religião e poder.

Orgulho e Paixão: a luta feminina no agradável e agressivo interior

Minha primeira aproximação com Orgulho e Paixão foi por saber que seria inspirada no livro Orgulho e preconceito de Jane Austen, que já estava na minha lista há meses, e terminei-o quando a novela já tinha começado. Este romance não foi a única inspiração de Marcos Bernstein. O autor reuniu características de personagens e universos de outros livros de Jane, como: Emma, Razão e Sensibilidade, Lady Susan e Northanger Abbey. Mas, apesar de menos assistida que as obras anteriores do horário das 18h (ou 18h15 ou 18h30…) e ela vêm conquistando o público e terá mais duração que sua antecessora, Tempo de Amar.

Críticas à parte, a novela sobra em sensibilidade nas falas dos personagens, principalmente das personagens femininas. A maioria se reúne no interior, cidade fictícia chamada Vale do Café. Ambientada em 1910, expõe uma sociedade apegada a valores, sobrenomes e tradições. “Em uma época cheia de regras, elas faziam as delas” – já dizia a chamada da novela. É sobre elas e é nelas o seu ponto alto.  “Acho que as mulheres já conquistaram muitas coisas, mas elas estão em um momento onde elas precisam dessa inspiração, de mulheres poderosas, mulheres que vão à luta” – resumiu Gabriela Duarte na coletiva de lançamento da novela. Falando em Gabriela, é por ela que começamos a falar de nossas guerreiras.

 Julieta

Interpretada por Gabriela Duarte.

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Gabriela Duarte como Julieta (foto: divulgação/TV Globo)

“O senhor não sabe o que uma mulher como eu precisa aguentar, calada, para sobreviver nesse mundo de homens”.

Vítima de um estupro que a fez engravidar aos 16 anos, foi obrigada a casar-se com o agressor e criou, sozinha, o filho depois da morte do marido. Ainda construiu, sozinha, um império que muitos atribuem ao trabalho do marido, Ela, inclusive, assina com o seu sobrenome de casamento. Preciso dizer mais alguma coisa? Julieta, que para muitos é uma vilã, mostra o que anos de abuso físico e moral causam nas mulheres. Criou o filho por meio de uma distância amorosa e é constantemente subjulgada em reuniões de negócios com os homens. É dona do título Rainha do Café e vem desenvolvendo cenas de grande tensão. Ela por si só já daria uma análise.

 

Elisabeta

Interpretada por Natália Dill.

Orgulho e Paixão Elisabeta
Nathália Dill como Elisabeta (foto: divulgação/TV Globo)

“Eu acho que tenho o direito de viver minhas próprias experiências. (…) Eu desejo tudo que a vida tem a me oferecer.”

Protagonista da novela, Elisabeta deseja o mundo. Fugindo dos sonhos de sua mãe e irmãs, a mais velha dos Benedito luta para conseguir um emprego e recusa, por várias vezes, o pedido de casamento do homem que inclusive ela ama. Decidida, começa a escrever em um jornal de São Paulo histórias de mulheres batalhadoras e decide ter a primeira noite com o homem que ama mesmo sem se casar com ele (uma raridade pra época é válido lembrar).

 

Ema

Interpretada por Agatha Moreira.

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Ágatha Moreira como Ema (foto: divulgação/TV Globo)

“Nada está acima das pessoas que eu amo.”

A luta feminista não é contra o casamento, mas contra a falta de liberdade das escolhas das mulheres. A força de Ema é a prova disso. Casamenteira de plantão, ela é responsável por casar parte de suas amigas. Criada em uma família tradicional, bate no peito por defender seu sonho de se casar e cuidar da família. Tendo o casamento como prioridade, a baronesinha não perde em nada por pensar assim. Sua personagem é a prova de que liberdade é liberdade, seja em qualquer direção.

 

Jane

Interpretada por Pâmela Tomé.

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Pamela Tomé como Jane (foto: divulgação/TV Globo)

“Eu não abrigo maus sentimentos em meu coração”.

Jane é a personificação do sentimento de delicadeza. A sua maneira, ela não fica atrás das mulheres corajosas, mas segue a linha de seu coração e isso, não depõe contra a menina Benedito. Vindo de uma família de classe média, apaixonou-se logo no início da novela por um homem rico, lutou contra as exigências da época, casou-se e escolheu perder a virgindade com ele só depois da celebração. Para ajudar nas contas de casa, começou a trabalhar de lavadeira. É sutil, com um olhar fraternal e uma crença no outro insuperável. Jane comprova o poder das pessoas de coração.

 

Ludmila

Interpretada por Laila Zaid.

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Laila Zaid como Ludmila (foto: divulgação/TV Globo)

“Vou te mostrar como as tradições nos limitam”

Ludmila é a típica mulher moderna da época de 1910. Usa calça, em um mundo de saias e administra uma fábrica perante um conselho administrado por homens. Fuma, namora vários homens sem casar com eles e incentiva suas amigas e buscarem suas independências. É irônica, inteligente e com a língua bem afiada. É uma personagem secundária que, quando em cena, não deixa de ser notada.

Além das cinco aqui citadas, ainda temos muitas outras, e elas ainda irão aparecer. Orgulho e Paixão é transmitida de segunda a sábado, às 18h30, na TV Globo.

 

Autora do texto:

Mariana VirgílioMariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente).

 

 

Primeiro Capítulo: A sempre atual “Vale Tudo”

Dizer que “Vale Tudo” é uma das maiores novelas da nossa teledramaturgia é cair no senso comum. É clichê. Não existe nenhuma novidade quanto a isso, afinal passaram-se 30 anos da estreia em 1988 e ela continua fiel e atualizada em sua promessa. Por incrível que pareça, ela não envelheceu da mesma forma como outras colegas de mesma década, possui ainda um frescor. É bem difícil escrever esse texto, afinal essa é uma das minhas novelas prediletas, assisti pelo box da Globo Marcas em DVD e ver agora na íntegra é de se empolgar novamente, pois ver a história completa são outros quinhentos. Ontem, o canal Viva deu o pontapé inicial com a re-reprise da novela escrita pelo trio gabaritadíssimo: Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Basséres. Depois de ter sido exibida na estreia da emissora em 2010, hoje, “Vale Tudo” reinicia com fãs ainda mais animados com esse comeback comemorativo dos 30 anos.

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Raquel e Dona Mildred em passeio turístico  (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

O primeiro capítulo é instigante, mordaz e direto. Tudo acontece. Se hoje estamos acostumados com as dinâmicas narrativas de João Emanuel Carneiro e Walcyr Carrasco repletas de reviravoltas logo no primeiro episódio, muito se deve a herança deixada por “Vale Tudo”.  Logo de cara conhecemos a índole de todos os personagens, a briga inicial, com direito a agressão, entre Raquel, a estridente personagem de Regina Duarte, e Rubinho, papel de Daniel Filho, já marcam o que virá pela frente. A cena é forte, pois já encontramos aqui dois pólos opostos: o marido mau-caráter e a esposa honesta, que suplica ajuda dele para resolver os problemas domésticos. O embate entre os dois é visto pela filha do casal, Maria de Fátima, que apenas observa a família se ruir. Quando Raquel saí da casa do marido e vai morar com o pai em Foz do Iguaçu junto da filha, ocorre uma troca nos pólos, Rubinho deixa de ser o antagonista de sua vida para a própria filha assumir esse lugar.

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Maria de Fátima dando golpe no taxista em “Vale Tudo”  (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

 

O texto é ousado, pois coloca mãe e filha em busca de objetivos antagônicos, isso sem rodeios, logo de cara para o telespectador. Raquel não enxerga a verdadeira essência da filha até o momento que leva o golpe dela, mesmo assim custando acreditar que a menina poderia vender a casa que moravam sem seu consentimento. O debate proposto pelos novelistas de “É possível ser honesto em um país de desonestos?” nasce na casa de Raquel, onde ela e Fátima vivem em constante discussão sobre princípios e valores. Os diálogos são ferozes, principalmente partindo de Fátima, vide a conversa entre ela e o avô sobre corrupção. A personagem naturaliza o que é errado, pois segundo seu ponto de vista, em um país onde todos agem dessa forma, isso deixa de ser algo incorreto, mas sim é o modo operante de seu povo. O embate entre ela e o avô é duro de se ouvir, pois ele ainda continua extremamente contemporâneo, afinal diversos pontos tocados por Salvador, papel de Sebastião Vasconcelos, ainda estão longe de se concretizar, reafirmando que muitas coisas ainda não mudaram após esses trinta anos.

A discussão levantada pelos autores é levada ao extremo é reforçada o tempo todo neste primeiro capítulo, em um tom quase de piada, no melhor estilo “o feitiço contra o feiticeiro”, Maria de Fátima leva um golpe do taxista que cobra uma fortuna por uma curta corrida, vendo que está sendo passada para trás, ela resolve aplicar uma para cima do motorista. A jovem prolonga a corrida, fazendo diversas paradas até que em uma delas, não retorna mais ao carro e o deixa com uma caixa de presente, onde dentro tinha uma banana. O gesto da banana é tão potente, que os autores repetem ela no último capítulo com a fuga de Marco Aurélio, do Brasil, fazendo um banana para o Rio de Janeiro. Gilberto Braga e seu time já revelam que aqui: o golpista tem vez e ainda por cima tem que tomar cuidado com os outros, pois a rasteira pode vir de seu semelhante.

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A banana de “Vale Tudo” (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

“Vale Tudo” não é uma trama esteticamente bonita, produzida antes da revolução de fotografia de “Pantanal” da TV Manchete (1990), ainda seus cenários são muito escuros e repletos de sombras, mas nada disso tira o seu brilho que está exatamente no mais importante: o texto. É imprescindível reiterar isso, mas são os diálogos os responsáveis por tornar essa novela tão presente na memória afetiva do público, pois eles ainda funcionam e muito. Tomamos como exemplo a cena que Fátima incentiva a mãe a sair com o homem mais velho, rico e até mesmo casado, inclusive a chama em um tom nitidamente debochado de “até que você é bonitinha”. A filha menospreza a mãe sem pudor algum, achando inclusive que está fazendo um elogio. Importante dizer que a novela não vive só do texto, mas sua montagem tem tiradas para lá de eficientes e repletas de críticas, a que mais chama atenção nesse primeiro capítulo é quando Raquel está discursando sobre a honestidade do povo trabalhador brasileiro, mas que em seguida corta para a cena da personagem Aldeíde, de Lília Cabral, roubando papel higiênico e sabonete do banheiro da empresa onde trabalha, pois sabe que o salário não vai render o mês todo. Portanto a tese dos criadores é: ninguém está ileso de ser desonesto neste país.

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Aldeíde roubando o papel higiênico da empresa (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

Mesmo ainda escrita em um final de censura, “Vale Tudo” é transgressora e toca em diversas feridas ainda abertas do comportamento brasileiro. Aqui não existe a intenção de passar a mão em nenhuma classe social, todos são responsáveis pelo país que vivemos e é essa é tese defendida pelos autores. Essa é uma das características que faz com que ela ainda seja tão atual, pois o Brasil de 2018 ainda é o mesmo de 1988 em diversos aspectos. Neste primeiro capítulo, vimos diálogos duros, mas foi possível rir e chorar de nossa própria desgraça, até mesmo beber um gin tônica com Maria de Fátima (e a gente achando que tinha sido a Beth de “O Outro Lado do Paraíso” a precursora do hábito). Mas quanto a obra do gênero novela, temos um folhetim com um grande texto, excelentes interpretações e ritmo que não deve a nenhuma outra da era dos seriados.

Ação e debate sobre honestidade definem os caminhos de “Segundo Sol”

Durante as entrevistas de lançamento de “Segundo Sol”, João Emanuel Carneiro afirmou que a sua nova trama estaria mais próxima de suas obras anteriores “Da Cor do Pecado” (2004) e “Avenida Brasil” (2012). Com essa primeira fase que acabou na última quarta-feira (23/05), o novelista realmente pôde comprovar seu ponto, os nove capítulos da primeira fase da história foram movidos por muita ação, em nenhum momento o telespectador ficou entediado com a loucura que se tornou a vida de Beto Falcão e Luzia graças aos planos nada simpáticos de Karola, Laureta e Remy.

Assim como suas outras novelas, as protagonistas penaram e muito nas mãos de seus algozes. A Preta de “Da Cor do Pecado”, vivida por Taís Araújo, foi vítima direta do ódio de Bárbara – aqui interpretada, pela hoje mocinha, Giovanna Antonelli, assim como Rita/Nina, a personagem de Débora Falabella, em “Avenida Brasil”, que foi jogada no lixão por sua ex-madrasta Carminha, de Adriana Esteves. Já em “Segundo Sol”, o autor repete a sua fórmula de novelão com pitadas de seriado, colocando em todos os finais dos capítulos algum bom gancho que faz com que você queira assistir na noite seguinte. Nesse meio tempo, Luzia se apaixonou por Miguel, quase fugiu com ele, foi enganada, matou acidentalmente o ex-marido, perdeu os filhos, teve uma gestação escondida, foi julgada, presa e até fugiu do país para a Islândia. O prólogo triunfou as vilanias e colocou em maus lençóis a protagonista.

JEC escolheu saídas narrativas clássicas do folhetim como: triângulos amorosos, falsa gravidez, mentiras e amantes. Mesmo se utilizando de recursos já velhos conhecidos do público que acompanha o gênero, o autor não deixou de incluir características das séries, algo muito presente em suas obras. Tudo se resolve rapidamente e a narrativa tem muito ritmo, nenhuma questão leva muitos capítulos para ser resolvido. Isso se deve também as muitas passagens de tempo desse primeiro momento, responsáveis por darem ainda mais agilidade a trama, fazendo com que o telespectador (principalmente o do Twitter) questionasse se o autor fosse capaz de manter esses inúmeros ganchos ao longo dos capítulos restantes. Outra marca registrada do novelista é focar em um primeiro momento apenas no núcleo principal, portanto só nos foi apresentado o drama de Luzia e Beto, assim como a família Athayde. Esses dois são fundamentais para o desenvolvimento da narrativa, afinal é com eles que se encontram os filhos da protagonista, Manu e Ícaro.

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Luzia, agora Ariella e Groa (foto: reprodução/TV Globo)

O capítulo inicial da segunda fase reforça ainda mais esse ritmo. Sendo bem direto, o autor traz as angústias e o contexto de Manu e Ícaro após dezenove anos. Agora os irmãos interpretados por Luisa Arraes e Chay Suede demonstram suas insatisfações com o rumo de suas vidas, sem mostrar cenas de infância e adolescência, JEC preferiu explicar tudo diretamente em diálogos, em cenas do cotidiano. Manu mostra sua relação problemática com a família Athayde, principalmente a relação conturbada com a irmã Rochelle, interpretada por Giovanna Lancelotti. Além de não ter o sentimento de pertencimento por aqueles que a adotaram, Manu não demonstra nenhuma conexão com rico estilo de vida de sua família adotiva. Já por meio de um comportamento de bad boy, Ícaro apresenta uma relação nada amigável com a tia Cacau, vivida por Fabíula Nascimento, as falas fortes demonstram que o rapaz tem rancor da tia por ter separado os irmãos. Tanto Manu, quanto Ícaro são personagens bem densos, que podem ter suas camadas psicológicas aprofundadas com o passar dos capítulos, o passado dos dois marcado pela ausência da mãe e as educações tão distintas que receberam serão responsáveis por boas cenas com eles.

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Chay Suede e Luisa Arraes como Ícaro e Manu (foto: reprodução/TV Globo)

 

O novelista também não tomou muito tempo para contar a ascensão meteórica de Luzia como Ariella, poucas explicações foram feitas e para o momento foram suficientes para fazer com que ela retorne para Salvador à procura de seus filhos. Luzia/Ariella se apresentou na Islândia, voltou para o Brasil, tomou banho de mar, encontrou Cacau em uma das cenas mais intensas do capítulo e ainda tocou em uma festa. Tudo rápido, direto, como se estivesse tirando um curativo, João Emanuel foi prático sem muitas firulas. Até mesmo as vilãs passaram pela mesma lógica, Laureta cada vez mais poderosa como cafetina foi mostrada como ela ainda mantem o mesmo esquema de aliciamento para a prostituição, enquanto isso Karola é mostrada como uma mãe devotada ao filho Valentim, interpretado pelo ator Danilo Mesquita, e a viúva dedicada.

Além de todos esses acontecimentos intensos, o novelista determinou, principalmente, o tema da trama através do personagem de Beto. Foram exibidas duas cenas fundamentais para escancarar um dos questionamentos essenciais de “Segundo Sol”, que é o debate sobre honestidade e caráter. A primeira delas é com seu filho Valentim, que não sabe que Miguel é na verdade Beto, seu pai amado e adorado, por isso acaba discutindo com ele, chamando-o de oportunista, por passar os dias bebendo cerveja e fazendo compras, se aproveitando do dinheiro dos direitos autorais do “falecido” cantor de axé. Essa relação conturbada entre pai e filho, disfarçada de padastro e enteado mexem com Beto, que parece viver em um modo automático. Essa comodidade é debate entre outra conversa de pai e filho, mas desta vez, entre Beto e Seu Nonô, papel de José de Abreu, que não aceita a condição de mentira que a família acatou em função do dinheiro.

Nessas duas cenas, JEC abre uma discussão sobre o limite da honestidade, mas que não paira apenas na família Falcão. Muito pelo contrário, todos os personagens apresentam alguma outra face não tão boa, isso também se reflete muito na família Athayde, em todos os seus membros, que se aproveitaram da situação de Luzia para arrancar Manu e garantir a felicidade deles próprios, sem se preocupar com o futuro da mãe dos meninos ou mesmo com o outro irmão da garota. Os personagens trazidos por JEC são muito humanos e por isso muito carismáticos, você compreende o debate interno levantado por eles, portanto esqueça os chapados personagens de “O Outro Lado do Paraíso”, extremamente maniqueístas, aqui o autor trás seres ficcionais repletos de contrastes, ninguém é completamente bom ou mal, eles são humanos. Toda a narrativa está repleta de anti-heróis, começando por próprio Beto que aceita o fato de sua falsa morte confortavelmente, afinal entra dinheiro e muito, que faz com que ele se cale. Por mais que tenha tido influência de Karola e Remy, a decisão final ainda continuou sendo do próprio cantor e ele é o principal responsável por toda as suas escolhas no final das contas. Além dele, temos Roberval, interpretado por Fabrício Boliveira, que vai em busca de uma nova vida, mas acaba escolhendo um caminho não tão honesto, assim como Karola, Remy e até mesmo Luzia. Todos possuem alguma falha.

No ano de aniversário de 30 anos de “Vale Tudo”, “Segundo Sol” vem repetir a discussão da novela de Gilberto Braga e Aguinaldo Silva,  de certa forma utiliza da máxima de “É possível ser honesto em um país de desonestos?” para poder contar a sua história. Afinal ninguém ali se escapa de alguma falha de caráter, o pobre não é imaculado e livre de erros, assim como o rico não é apenas o grande vilão, ambos apresentam deslizes e acertos. A discussão levantada pela atual novela, não chega a ser tão escancarada quanto a trama de Maria de Fátima e Raquel, mas ainda assim toca nas mesmas feridas de três décadas atrás, mostrando que esse assunto sempre é atual na sociedade brasileira. Torcer para que essa discussão não acabe por aqui, mas ainda sirva de pano de fundo para os muitos arcos de “Segundo Sol”.

Mito do Herói: a força de Maria em “Onde Nascem os Fortes”

Há quase um mês no ar, “Onde Nascem os Fortes” já se mostrou ser uma trama para quem tem estômago forte. A supersérie, como é classificada oficialmente pela Globo, reitera o seu título o tempo todo na narrativa de Maria, personagem de Alice Wegmann, que enfrenta os poderosos do sertão para descobrir alguma informação sobre paradeiro de seu irmão gêmeo desaparecido Nonato, interpretado por Marcos Pigossi. A jornada da protagonista não é nada fácil, em quase quatro semanas no ar, ela já passou por diversas situações tensas: escapou de uma tentativa de estupro, para se defender acabou matando um dos capangas de seu inimigo, fugiu escondida na traseira de um caminhão, refugiou-se em diversos lugares, montou um bando para ajudá-la no seu plano de vingança, levou um tiro no braço, sobreviveu e agora até roubar um caminhão foram uma das ações de Maria. Sim, o sertão é para os fortes.

Maria é filha do sertão, mesmo sendo criada no Recife, sua mãe Cássia, vivida por Patrícia Pillar, nasceu na região. Com um mistério ainda não revelado, a mãe dos gêmeos não possui boas lembranças do tempo em que vivia lá, muito por causa desse passado, sempre relutou a viagem dos filhos para o sertão. Maria não nega ser filha de Cássia, muito da coragem da menina vem de sua mãe. Devido a idade, a jovem possui uma carga de rebeldia maior, que faz com que enfrente seus inimigos de forma bem mais destemida e irresponsável.

“Onde Nascem os Fortes” é uma história de mulheres valentes que buscam quebrar as barreiras do conservadorismo, Maria e Cássia são suas principais expoentes. Em um ambiente predominantemente machista, as duas encaram de frente os poderosos homens da região, como o empresário de minério Pedro Gouveia, vivido por Alexandre Nero, o juiz Ramiro, papel de Fábio Assunção e o delegado  Plínio, interpretado por Enrique Díaz. Os três são nojentos, prepotentes, dominadores, anti-éticos, misóginos, entre outras características nada agradáveis. Acreditam que no controle do homem perante as mulheres, além disso enxergam as mulheres como meros objetos de seus desejos. O conservadorismo desses homens se chocam com o comportamento nada submisso de mãe e filha, por isso ambas causam uma estranheza nessas figuras tão antiquadas, que enxergam as duas sob olhares de raiva, ódio e até mesmo, curiosidade.

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Alice Wegmann e Patrícia Pillar em cena de “Onde Nascem os Fortes”.                                           (Foto: Divulgação/TV Globo)

Mesmo sendo uma supersérie e com uma direção bem arrojada, no fundo a história de Maria é uma dramalhão clássico, pois apresenta um dos temas mais universais de todos: a vingança. A jovem busca justiça pelo acontecido com seu irmão, portanto aniquilar seu rival, Pedro Gouveia, é essencial. Para atingir tal objetivo, Maria não mede esforços, coloca seu plano em primeiro plano, para isso abandona o grande amor – filho daquele a odeia. Para piorar seu cenário, ela sabe que seu inimigo é cúmplice da polícia local, portanto conclui que não pode contar com os meios oficiais para resolver a sua situação, portanto a sua única saída é a ilegalidade. Já que não se pode contar com a lei, passa agir contra ela. Pode-se concluir que Maria é uma anti-heroína das mais ousadas.

Conforme definido por Christopher Vogler em “A Jornada do Escritor”, o herói precisa passar por diversas adversidades para evoluir. Os oponentes de Maria são mais poderosos que ela, possuem melhores armas, são mais bem articulados e possuem respaldo financeiro e político, portanto todos os ataques feitos contra ela, são responsáveis por transformarem e deixarem ela cada vez mais resistente. O autor da jornada do herói afirma que quanto mais o protagonista sofre nas mãos dos vilões, mais pronto ele ficará para enfrentá-los em mesmo pé de igualdade. Ainda em seus primeiros 30 capítulos, Maria está em seu processo de desenvolvimento, primeiramente compreendendo sua importância como força motriz nesse jogo de poderes do sertão. O fato de ser uma pessoa de fora, “da cidade grande”, assim como ser mulher são fatores fundamentais para que ela se torne alvo de Pedro e delegado Plínio.

Para reforçar a ideia de heroína do sertão, a direção optou por fazer uma Maria sem vaidade. Antes do desaparecimento de Nonato, a protagonista já aparecia com um visual mais despojado, sem tanta maquiagem, algo bem natural. Após todo o desenrolar da personagem, ela passou a utilizar peças dos colegas de bando, camisetas, blusas e calças masculinas passaram a compor seus figurinos. As roupas são confortáveis para facilitar as ações de fuga e o calor da região. De certa forma, através de suas novas vestimentas  buscam reprimir qualquer exposição de vulnerabilidade, pois em sua nova fase, a única questão que realmente importa é a sede de justiça.

O ambiente seco e árido faz com que a personagem desenvolva uma rigidez própria. Crie uma camada dura em relação ao mundo e aos seus acontecimentos. Maria por mais impulsiva que seja em diversos momentos, pois é uma característica nata de sua personalidade, acaba por viver uma fase muito menos emotiva, mas sim extremamente racional. Um exemplo dessa priorização do pensamento é quando ela renega todo o seu relacionamento com Hermano, papel de Gabriel Leone. Por mais que se amem, ele ainda é filho de seu maior inimigo, Pedro Gouveia, por isso prefere se afastar do rapaz. É importante ressaltar ainda que a estrutura básica do folhetim romântico se encontra na narrativa de “Onde Nascem os Fortes”, porque ela também sofre por amor. Inclusive acaba se posicionando em um triângulo amoroso, pois desperta a paixão de Simplício, personagem de Lee Taylor, que faz parte de seu bando. O triângulo amoroso é outra temática atemporal dos folhetins em capítulos.

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Lee Taylor (Simplício), Alice Wegmann (Maria) e Gabriel Leone (Hermano) (foto: Divulgação/TV Globo)

Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg trazem em Maria e seu bando a imagem de um cangaço moderno e atualizado, onde a mulher é a líder. Junto com Simplício e Mudinho, personagem de Démick Lopes, vivem uma releitura do cangaço – que em sua definição tradicional segundo estudo de Maria Luiza Tapioca Silva  era um local que homens e mulheres obedeciam às normas estabelecidas e ofereciam parceria, confiança e fidelidade entre os membros. Maria, Simplício e Mudinho se uniram para proteger uns aos outros e também vingarem do poderoso Pedro Gouveia. Mesmo sendo inexperiente na região, Maria despenha papel de elo e liderança no grupo.

“Onde Nascem os Fortes” traz duas personagens femininas muito fortes, mãe e filha que buscam cada uma de sua maneira lutar pela história de Nonato. Enquanto Cássia vai atrás dos meios legais, aproveita seu tempo na busca por melhorar a vida das famílias que vivem na seca. Devido a sua própria experiência pessoal, Cássia é articulada e mais racional do que a filha, por mais que sinta o medo de perder os dois filhos a consuma por completo, consegue agir de maneira mais fria e consciente. O fato de ter criado os gêmeos sozinha faz com que ela aja como uma leoa, que busca defender seus filhos das calúnias que circulam pelo sertão. Essa força interna da personagem também reflete diretamente na personalidade valente de Maria.

Até o momento a supersérie nos mostrou uma protagonista sem medo de enfrentar as sombras de seu caminho. Ciente de sua sexualidade, inteligência e de articulação, Maria acredita que os fins justificam os meios em busca de justiça. Uma anti-heroína porreta e repleta de atitude, que não se deixa abater pelas ações de seus algozes. Talvez por isso, ela seja uma protagonista tão corajosa que faz com que o público torça por sua felicidade e consiga vencer o seco sertão dominado pelos seus figurões conservadores e totalitários.

Primeiro Capítulo: a colorida e ritmada “Segundo Sol”

Clássicas e releituras da axé music embalam ensolarado primeiro capítulo de “Segundo Sol”.

Pode esquecer a paleta de cores em tons terrosos, os figurinos com tecidos grossos, casacos pesados e chapéus da trama de Walcyr Carrasco, eles ficaram definitivamente para trás. Agora na trama de João Emanuel Carneiro entram as cores e a alegria baianas, impulsionados pelo axé music dominando as cenas de “Segundo Sol”, a novela das 21h que estreou hoje (14/05).

Como marca de suas obras, o novelista apostou em um primeiro capítulo ritmado e extremamente focado no núcleo principal. O telespectador pode compreender claramente qual era o contexto do decadente cantor de axé Beto Falcão, vivido por Emílio Dantas, naquele ano de 1999. Tanto na sua vida pessoal, como a profissional estavam indo de mal a pior. Com uma carreira declinando, Beto se vê quebrado, com dívidas causadas por seu trambiqueiro irmão Remy, papel de Vladimir Brichta, além disso, para piorar a situação, se vê abandonado pela interesseira namorada Karola, interpretada por Deborah Secco, que não aceita vê-lo ver sua carreira desmoronar.

Beto é um rapaz de bom coração, como todo bom mocinho deve ser. Influenciado pelos gananciosos Remy e Karola, ele aceita simular a própria morte, mesmo sabendo que se trata de um crime, em troca do dinheiro que será feito com o seu falso falecimento, afinal percebeu a comoção nacional causada pelo incidente. A dupla de amantes possui  uma boa sintonia em cena, os atores estão excelentes em cena e funcionam como par, com um tom que caminha entre o deboche e a piada, os vilões apresentam uma estrutura de comédia que parece combinar com enredo (pelo menos nesse primeiro capítulo). Karola já desponta com uma promessa de uma excelente vilã, devido à direção Dennis Carvalho, a personagem parece uma evolução maligna de Darlene de “Celebridade”- atualmente no “Vale a Pena Ver de Novo” que também foi dirigida pelo diretor – afinal ela é sexy, iludida com a fama, destrambelhada e carismática.

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Vladimir Brichta e Deborah Secco, respectivamente, como Remy e Karola (foto: Divulgação-TV Globo)

A segunda parte do primeiro capítulo, foca na fuga de Beto Falcão para Boiporã, quando aluga um quarto na casa de Luzia, personagem de Giovanna Antonelli. Já sob o falso nome de Miguel, passa a viver na casa da marisqueira, com o seu jeito simples e dócil, conquista o carinho dos filhos dela, mas principalmente o da própria Luzia. De forma bem dinâmica, foi mostrada toda a construção da relação de amor entre Luzia e Miguel/Beto, até o momento em que eles comunicam que irão casar. Como característica das narrativas de JEC, onde tudo acontece muito rapidamente, os vilões já armaram uma resposta ao efêmero romance dos protagonistas. Quando Remy visita o irmão na ilha, descobre do relacionamento e dos planos de casamento dele, o invejoso irmão já comunica Karola, que resolve fazer uma visita ao namorado. A personagem de Deborah Secco fala para Luzia que está grávida do cantor e que está procurando ele para dar a notícia, além disso também se apresentou como noiva dele. Entretanto a mocinha da novela tinha recém-descoberto sua gravidez. Desiludida com a situação, Luzia parece acreditar em Karola, mas o desenrolar dessa história saberemos com os próximos capítulos.

A rapidez como tudo se deu, principalmente em relação ao casal de protagonistas se deve muito a química entre os dois. Antonelli e Dantas formam um casal que passa verdade ao telespectador. Giovanna parece ter sido uma escolha acertada, de certa forma, para o papel, devido ao estilo da personagem que combina com ela e pela combinação com Emílio, porém não se pode negar que faltou sim uma atriz negra para viver o papel. A tentativa de minimizar a situação colocando Luzia à la “Gabriela Cravo e Canela”, como definido pelo crítico Maurício Stycer, soou falsa no final das contas. No caso de Emílio também foi uma decisão bastante acertada, o ator aparenta estar seguro no papel, além de ser bastante carismático e convincente quanto cantor, possui a malemolência, boa voz e presença necessárias.

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Beto e Luzia em cena (foto: Divulgação/TV Globo)

Em um outro tempo e lugar, o novelista parece recuperar o universo ficcional de “Avenida Brasil”, o café da manhã na casa dos Falcão, com direito à um belo de um barraco nos lembrou os tempos de família Tufão. Diferente da direção de Amora Mautner, onde as brigas aconteciam com todo mundo falando simultaneamente, Dennis Carvalho e Maria de Médicis privilegiaram uma direção mais clássica, deixando cada um falar no seu tempo. Se tratando da família Falcão pouco foi mostrado até o momento, Arlete Salles e José de Abreu possuem potencial de levar o núcleo Falcão longe. Fico feliz com o retorno de Arlete as novelas, realmente é uma atriz que faz falta no gênero.

Mesmo com o foco sendo basicamente em Beto, Remy, Karola e Luzia, outra personagem brilhou em sua rápida primeira aparição: Laureta, a cafetina de luxo interpretada por Adriana Esteves. Com um visual bem impactante e falas prontas para se tornarem virais, Laureta tem potencial para ir distante e repetir a dobradinha de sucesso entre Adriana e JEC. Existe um ar de mistério entre Laureta e Karola, sua ex-agenciada. É possível notar uma certa relação de domínio, uma tensão ainda não bem esclarecida, que parece ser um dos nortes de “Segundo Sol”. Falas como: “Te fiz um favor” se referindo ao fato de ter influenciado o término do relacionamento entre Beto e Karola e “Quem fez uma vez, faz de novo”, se referindo a prostituição já demonstram que ela será uma vilã objetiva, onde tempo e dinheiro andam sempre lado a lado. Em entrevistas, João Emanuel disse que a ação da vilania será revesada entre as duas, aparentemente é o que vemos já nesse primeiro capítulo, que quem fez tudo andar foi Karola, ainda Laureta está nos bastidores – por enquanto.

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Trio elétrico de Beto Falcão no Carvanal de 1999 (foto: Divulgação-TV Globo)

Além dos personagens, outro fator que chamou muita atenção nesse capítulo e ajudou na contextualização dessa Bahia do final dos anos 1990 impulsionada pelo axé music foi a trilha sonora. O capítulo já mostra imagens com os trios elétricos do Carnaval de Salvador ao som da clássica “Canto da Cidade” na voz de Daniela Mercury. Entretanto a direção não apostou apenas em versões originais da época, mas a trilha sonora da novela é composta por regravações de grandes músicas do gênero como “Me Abraça” e “Vem Meu Amor” da Banda Eva, que ganharam versões repaginadas, respectivamente adaptadas por ANAVITÓRIA e Wesley Safadão. Até uma versão em inglês foi feita, no caso a escolhida foi o hit “Swing da Cor” de Daniela Mercury que foi revisitada por Ikoko, duo italiano de música eletrônica. Quando foi noticiado sobre as novas versões, houve uma torcida de nariz de parte do público, com destaque para os mais saudosistas, mas em cena foi notado o quão importante elas foram para estabelecer o clima entre aquele período e os dias atuais. A mescla entre as originais e os covers deram um frescor, impossibilitando que a trama viesse a ficar com um aspecto datado. A escolha do repertório ajudou no reforço do universo ficcional do novelista, voltado ao popular, algo bem semelhante ao visto em “Avenida Brasil”.

Em resumo, JEC apostou em uma história de amor direta, sem muitas firulas, levando o telespectador exatamente para o centro do furacão Beto Falcão. Diferentemente de outras tramas mais complexas do autor como “A Favorita” e “A Regra do Jogo”, o novelista deixou de lado as passagens mirabolantes para focar unicamente no desenrolar, rápido e eficaz, da trajetória do cantor. A apresentação dos personagens foi inteligente, com destaque para as personalidades carismáticas de Beto, Remy e Karola, em que os atores estão excelentes em seus papéis. O primeiro capítulo deixou com uma vontade de quero-mais de Laureta. Quanto a Luzia, ainda ela está no início da trajetória da heroína, mas entre os personagens apresentados é a menos interessante, pelo menos por enquanto. Vamos aguardar o desenrolar dessa trama que parece resgatar mais uma vez o bom e velho novelão.