O Outro Lado de Sophia?

A personagem de Marieta Severo manipulou, mentiu e matou diversos personagens, mas a fica a dúvida se ela entrou para o hall das grandes vilãs da teledramaturgia nacional.

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Sophia (Marieta Severo) em seu julgamento nos último capítulos de “O Outro Lado do Paraíso” (foto: reprodução)

Desde as primeiras chamadas de “O Outro Lado do Paraíso”, foi mostrado ao público que a vilã de Marieta Severo, Sophia, não estaria para brincadeira. Junto de sua filha, Lívia, interpretada por Grazi Massafera, seriam as grandes vilãs responsáveis por transformar a vida da protagonista Clara, personagem de Bianca Bin, em um verdadeiro inferno. Sophia manteve a personalidade má e cruel durante toda trama, diferente de sua filha (não-filha), que amoleceu o coração após se apaixonar pelo garimpeiro, Mariano (Juliano Cazarré). Walcyr Carrasco garantiu o chapéu de vilã para Sophia e não tirou dela em momento algum.

Na história da teledramaturgia nacional, muitas vilãs eram mães e seus filhos eram responsáveis por demonstrar suas vulnerabilidades, vide casos de Nazaré Tedesco em “Senhora do Destino” e Perpétua em “Tieta”, entre outros. Entretanto Sophia não era uma delas, seus filhos e até mesmo o neto nunca passaram de meros instrumentos para seus planos de arrancar as minas de Clara e destruir todos aqueles que eram seus inimigos. Nos primeiros capítulos, ela já envenenava a cabeça do desequilibrado Gael, papel de Sérgio Guizé, que acabava bebendo demais e batendo na até então esposa, Clara. Lívia foi uma aliada apenas no começo da trama, principalmente com o roubo de Tomás, filho de Clara e Gael, que foi criado por ela como seu. A personagem de Grazi Massafera ajudou a mãe no plano de colocar Clara no manicômio, mas depois acabou virando presa fácil de Sophia, afinal era a megera que tinha a guarda oficial do menino Tomás. Por último, a renegada Estela, papel de Juliana Caldas, a filha anã de Sophia era odiada pela mãe devido a sua condição. Sem nenhuma melhora no relacionamento entre as duas, durante toda a trama, Sophia caçoou, xingou, brigou com a filha em diversos momentos, demonstrando nenhum tipo de carinho.

A falta de afeto da mãe para os filhos foi crucial para que o público visse a personagem como uma vilã de fato, típica de desenhos animados. A família da personagem representava apenas um meio para obtenção de seus objetivos, não só por cada um desempenhar uma função estratégica em suas artimanhas, como também formavam um clã apresentável para a sociedade de Palmas. A exclusão da filha anã era proposital, afinal ela na cabeça da mãe e da preconceituosa alta sociedade local, Estela sujava o glamour que os Montserrat representavam.

 

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Lívia (Grazi Massafera), Sophia (Marieta Severo), Gael (Sérgio Guizé, Estela (Juliana Caldas) – centro. (Foto: divulgação/TV Globo)

 

Muito de sua personalidade combinada com o passado sofrido, Sophia sabia se colocar em uma posição de liderança, principalmente perante aos homens. Ela disputava poder com eles de igual para igual, muitas vezes, em um lugar superior ao deles. Em Palmas, Sophia comandava uma verdadeira quadrilha que favorecia suas falcatruas, tinha em suas mãos o juiz Gustavo (Luís Melo), o delegado Vinicius (Flávio Tolezani) e o psiquiatra Samuel (Eriberto Leão). Todos de alguma forma estavam presos nas mãos dela, que sabia chantageá-los muito bem para não precisar pagar pelos seus atos ilícitos. A megera não jogava de frente apenas com os grandes figurões, devido ao seu passado na prostituição, aprendeu a como lidar com os mais diferentes tipos, facilitando assim a sua forma de administrar tão bem o garimpo, durante uma boa parte da narrativa. Sophia passava muito tempo com seus garimpeiros, chegava inclusive a beber e jogar cartas com eles. Ela não só se divertia, como também adorava dar o golpe neles, para que pudesse mantê-los ainda mais próximos à ela, sem nenhuma tentativa de escapatória. Sophia fazia jus a ao ditado “o gado só engorda aos olhos de seu dono”, portanto vivia em Pedra Santa de olho em suas esmeraldas. Seus atos eram boa parte premeditados, por isso sempre estava perto das minas para não ser roubada pelos seus funcionários. Com muito jogo de cintura e firmeza, ela conseguiu impor respeito na mina e quem trabalhava nela. Mesmo em um ambiente extremamente machista, Sophia contornou a situação ao seu favor, fazendo com que ela se tornasse cada vez mais poderosa e temida. Marieta Severo soube imprimir esse tom irônico e sarcástico na personagem de maneira brilhante, sem que isso soasse falso, mas sim reforçando o status da vilã.

A antagonista de “O Outro Lado do Paraíso” não apresentava fraquezas ou traços de humanidade em seu caráter. A durona Sophia permaneceu assim durante toda a trama, até mesmo em seu julgamento final com o rosto paralisado por um AVC, não teve sua resistente carcaça desmoronada (apenas com o veredito final, que mostrou mais uma vez o seu descontrole). Se com a família e o trabalho, ela não demonstrava nenhum sentimento, um dos poucos momentos que foi registrado essa fragilidade foi durante o seu relacionamento com o chefe do garimpo, Mariano. As idas e vindas do casal foram responsáveis por diversos atritos e até questionamentos internos de Sophia, muitas vezes relacionado a sua beleza e idade, afinal era bem mais velha que seu amante. Entretanto viu seu mundo desmoronar quando descobriu que Mariano não tinha mais interesse nela, mas sim em sua filha Lívia. A derrocada de Sophia começa a partir deste momento, afinal ela se deixa levar por um amor o qual não é correspondida. Com o namoro entre Lívia e Mariano, Sophia rompe relações com a falsa filha, que acaba se virando contra a mãe.

A novela de Walcyr Carrasco foi construída de forma bem maniqueísta, em boa parte do tempo. A vingança da protagonista Clara, mesmo com algumas cargas de anti-heroísmo devido aos seus planos mirabolantes, não fizeram com que a personagem se perdesse em sua própria sede de fazer justiça com as próprias mãos, como o ocorreu com Nina, a personagem de Débora Falabella em “Avenida Brasil”. Clara foi boa em toda a novela, sofrendo em um quarteto amoroso, disputando judicialmente a guarda do filho e o carinho dele, entre outras coisas, a personagem sofreu sofreu sofreu como uma mocinha clássica do folhetim. Já Sophia foi uma vilã digna de desenho animado. Maldosa em todos os momentos, a personagem só pensava em esmeraldas e destruir a vida de Clara, qualquer outra ideia passava longe ou era pouco explorada pela mente doentia dela. Com uma tesoura na mão foi capaz de executar diversas pessoas (combinamos que nenhum deles de grande importância para o rumo da trama, exceto Mariano – que milagrosamente sobreviveu), em uma espécie de revival de Lívia Marine – a vilã da agulha vivida por Claudia Raia em “Salve Jorge”. Nesses assassinatos impulsivos, Sophia revelou que não aguentava mais a pressão na qual estava submetida. Se em um passado não tão distante, vimos vilões que causaram comoção no público por suas atitudes ambíguas de amor e ódio, como Carminha e Félix, Sophia só estimulou no público um sentimento: raiva. Portanto atingiu perfeitamente seu objetivo, afinal ninguém em hipótese alguma gostaria que a algoz de Clara se desse bem no final ou passasse por uma redenção.

Se em demais tramas, acompanhamos vilões com que pudéssemos criar algum tipo de identificação, com Sophia foi exatamente o oposto, desenvolvemos repulsa. Atingiu exatamente aquilo proposto pelo novelista. Em seu julgamento final, Sophia é diagnosticada como psicopata, infelizmente, uma conclusão rasa pelo o que a personagem representou, longe de apresentar uma psicopatia nos moldes de Flora, papel de Patrícia Pillar em “A Favorita”. A personagem de Marieta Severo foi desenvolvida pela forma mais clássica do folhetim, como um verdadeiro dramalhão, o autor determinou os bons e os ruins, separou o joio do trigo, com isso a vilã foi má o tempo, sem respiros. Em entrevista ao site GShow, Walcyr Carrasco confirmou que a novela retomou uma estrutura antiga, de um típico melodrama. Os mocinhos são bons até o final, enquanto os vilões são completamente mals e pagam pelos seus atos no final.

Se Sophia será lembrada no futuro como uma das grandes vilãs da teledramaturgia, apenas o tempo dirá. O que se pode concluir por enquanto é a importância do vilão no desenvolvimento do herói e como que ainda assim o melodrama clássico ainda tem espaço, e principalmente, força com o público brasileiro.

Você gostou da Sophia? Do final de “O Outro Lado do Paraíso”? Comente aqui!

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Marieta Severo como Sophia (foto: divulgação/TV Globo)

Autor: marcellusfonseca

Ator e radialista, formado no curso de Rádio, TV e Internet pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Atualmente estudante da pós-graduação de Storytelling na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Apaixonado pela TV brasileira, dedicado à arte da telenovela.

6 comentários em “O Outro Lado de Sophia?”

  1. Sensacional este blog! Outro nível hein! Desejo sucesso, pois tu mereces!
    Quanto ao final da novela, AMEI. Sophia bem que mereceu e a sacada de acabar no mesmo local que mandou Clara foi demais. Mas gênio mesmo foi a ultima cena com Fernanda Montenegro, seu olhar penetrante e a desmontagem seguindo. Muito bom!

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  2. Blog simplesmente espetacular!! Além de que essa matéria foi simplesmente fantástica !!! Adoreii, apesar da sophia ser uma megera, vamos sentir saudade dela como vilã.

    Curtido por 1 pessoa

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