Orgulho e Paixão: as vozes de quem resiste

Orgulho e Paixão chegou ao fim e deixou um monte de gente com o coração apertado. Sem grandes mistérios e reviravoltas, a novela conquistou o público exatamente pelo seu clima leve e descontraído, digno do horário das 18 horas. O trio Fred Mayrink (diretor), Marcos Bernstein e Victor Atherino (autores) têm do que se orgulhar. Inspirada em algumas obras da autora Jane Austen, a novela foi além e manteve a luta feminina forte e representativa do começo ao fim. Para momentos de firmeza, não temeu o horário e chamou atenção para a violência contra a mulher. Em momento leves, trouxe à telinha dois musicais, que surpreendeu e encantou o público. De tantas histórias, de tantas vozes, deixo aqui, cinco destaques da novela (mas conseguiria citar dez sem muitos esforços):

 

 

A história de Mariana

No início, a história da menina que precisou se vestir de homem para pode andar de motocicleta e competir (só era aceitável que homens fizessem isso) parecia um mero clichê, usado e abusado em diversas obras. Gil já premeditou: “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria…”. Mas o disfarce de Mário durou o tempo que ela julgou necessário para ganhar a própria confiança na motocicleta e ganhar a corrida. Inclusive, cena em que ela revela ser mulher. Poderosa. Corajosa. Intensa. Assim como a cena em que é agredida por um homem, e tem seus cabelos cortados. Assim como a cena em que revela o abuso e assume seus cabelos curtos (incomum para a época). Mariana existe pelo Brasil afora. Mas em Mariana também existe Chandelly (Braz, a atriz que deu vida à personagem). E Chandelly mais uma vez se mostrou grande.

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Mariana como Mário (foto: Divulgação/TV Globo)

 

A força de Julieta

De vilã a uma das personagens mais amadas da novela. Julieta foi a maior surpresa, a maior descoberta. Quem, no início da trama a via de roupas pretas, fechadas e com o ar de desprezo, jamais imaginaria que, tudo isso, era fruto de um abuso, ainda menina. De um só não, de vários. Já que teve que casar com o estuprador. Como ela mesma se classificou (em uma cena com Mariana), Julieta pertence ao grupo das sobreviventes, e viveu inúmeras cenas dramáticas durante a novela (principalmente quando conta para seu amado Aurélio e para o filho Camilo, tudo que sofreu). Mas Julieta encontrou no amor o recomeço. E descobriu que falar, ajuda. Que denunciar é necessário. Julieta não sabe, mas até hoje as mulheres precisam de força até para denunciar. Julieta existe porque Gabriela Duarte também existe, e merece todo o mérito.

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Julieta em cena de “Orgulho e Paixão” (foto: divulgação/TV Globo)

 

Inúmeras e únicas: as irmãs Beneditos

Desde o começo da novela, dona Ofélia (vivida pela grande Vera Ortiz) sonhava só com uma coisa: que suas filhas casassem. O que ela não imaginava é que suas meninas viveriam muito mais que isso durante a suas trajetórias. Dentro das cinco “beneditos” havia mulheres fortes, destemidas, curiosas, desbravadoras e também, doces. Tenho certeza que cada telespectadora se reconheceu em alguma, ou em muitas delas.

 

A força pelo trabalho

Teve quem sempre desejasse trabalhar, como Elisabeta. E também teve quem nunca se viu trabalhando, como Ema. Mas teve também aqueles que, do começo ao final da trama, fizeram do trabalho a força motriz de sua vida, como Mariko e Januário. Descendente de japoneses, Mariko era uma das poucas mulheres médicas e sofria inúmeros preconceitos por conta do gênero e também por sua origem. E Januário, descendente de pessoas que foram escravizadas, o pintor lutou muito para que além de sua cor, sua profissão fosse respeitada. Ambos finalizaram a novela como os grandes vencedores merecem.

 

#LUTÁVIO

Além do feminino, Orgulho e Paixão ainda tem outra marca: protagonizou o primeiro beijo gay no horário das 18 horas. A gente se alegra, mas sabemos que isso já devia ser “regra” há muito tempo. #Lutávio (nome criado pelos fãs do casal) encantou o público com a sensibilidade de seus personagens e modo com que cada um deles foi sendo vencido pela força do amor.

 

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Casal Lutávio, como apelidado pelos fãs nas redes sociais (foto: divulgação/TV Globo)

DIVULGAÇÃO/GLOBO

 

Em uma mistura entre o mau e o cômico, eu não poderia deixar de citar o prazer que tivemos de conhecer a bela dupla que Alessandra Negrini e Grace Giannoukas formam juntas. Do primeiro ao último capítulo, elas não perderam o fio e nos levaram aos risos, em meio ao ódio (mas, será que a gente odiou elas mesmo?).

Talvez Orgulho e Paixãonão seja e não se torne uma das novelas mais marcantes do horário das 18h. Tristeza maior é que esse horário não seja tão “famoso” quanto o das 21 horas. Mas, mesmo assim, concorre com força a melhor novela do ano. Em tempos de tanta luta das mulheres, a novela veio em um importantíssimo momento.

 

“Aqui, no Vale do Café (…) temos mulheres que, mais do que serem aquilo que supostamente nasceram para ser ou fazer, são o que querem ser…”

Elisabeta Benedito

Autora do texto:

Mariana VirgílioMariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente).

 

Enfrentamento do machismo e homofobia familiar foram os condutores da narrativa de “Onde Nascem os Fortes”

Depois de 53 capítulos de “Onde Nascem Os Fortes”, finalmente foi revelado o responsável pela morte de Nonato, o personagem de Marcos Pigossi. O assassinato do irmão gêmeo de Maria, vivida brilhantemente por Alice Wegmann, foi a força propulsora para todos os acontecimentos da trama, muito além disso, o crime impulsionou o desenvolvimento das narrativas de personagens femininas extremamente fortes, como a própria Maria e de sua mãe Cássia, papel de Patrícia Pillar, que enfrentaram o machismo de um lugar árido e tomado pela violência. A falta de respostas vinda de uma polícia completamente corrupta e ineficaz fizeram com que mãe e filha partissem para ação, cada uma com as suas próprias armas.

Como o próprio nome da série diz, o sertão é um lugar onde nascem aqueles que são mais resistentes. O ambiente seco, dominado pelos poderosos homens da lei e das terras mandam mais, afinal é com eles que estão o dinheiro, as armas, os capangas. Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg souberam conduzir isso perfeitamente, mostraram tão cruamente ao telespectador como funciona a manutenção do sistema autoritário em um lugar tão pobre, onde os jogos de interesses financeiro e político prevalecem em detrimento de qualquer lei. Por meio dos personagens rivais interpretados por Alexandre Nero e Fábio Assunção, respectivamente, Pedro Gouveia e Ramiro, essa luta de interesses foi demonstrada, em boa parte da narrativa. Ambos tiveram condutas condenáveis, entretanto as camadas humanas do personagem de Nero foram se sobressaindo, muito pela carinhosa figura paterna que tinha, enquanto o juiz de Sertão só revelava cada vez mais seu pensamento autoritário e conservador.

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Maria e Cássia, mãe e filha, em “Onde Nascem os Fortes” (foto: divulgação/TV Globo)

Cássia e Maria são filhas do sertão, ambas enfrentam esses homens da forma como acham mais conveniente para vencer a guerra pela ausência de respostas. A mãe dos gêmeos foca na experiência e na articulação, enquanto a filha pela própria imaturidade da vida age de forma mais impulsiva. O jeito como cada uma escolheu entrar no jogo é legítima. Afinal as duas precisam encarar o mesmo fator em comum: o machismo. No conservador sertão, mulheres como elas não são bem-vindas, muito menos bem acolhidas, inclusive elas fazem um contraponto com Rosinete, esposa de Pedro vivida por Débora Bloch. Mesmo sabendo da traição do marido, a mãe de Hermano e Aurora era a mulher dedicada a família e a um casamento falido, que vivia apenas para isso e esquecia de si mesma. Com o passar dos capítulos, Rosinete passa a se conscientizar dessa sua situação e toma novamente as rédeas de sua vida. Essa transformação fica bem clara em conversa com o seu filho, onde ela afirma ainda ser uma mulher e que possui suas vontades, mesmo depois de muito tempo negando-as. É impossível negar a influência de Cássia e Maria nas mulheres do seu em torno, mesmo que indiretamente.

A postura arrojada de Cássia foi o que atraiu Ramiro. O juiz da cidade ficou encantado pela personalidade marcante e destemida dela, aproveitando deste trunfo, ela passa a se relacionar com ele, pois através do relacionamento sabia que conseguiria vantagens, como acessar com mais facilidade o processo do assassinato do filho, como o julgamento de Maria. Entretanto esse local é perigoso, afinal Ramiro é uma alegoria do machismo, não só por possuir o poder da força bruta, política e da bala, mas pelo seu jeito irredutível e controlador, de um típico macho alfa. O caso entre os dois é abusivo, ele controlava os seus passos, as suas atitudes e a cercava de todos os modos, até por isso a empregou dentro do forúm.

O comportamento machista dele não se resume apenas com Cássia, mas principalmente com seu filho, Ramirinho, interpretado bravamente por Jesuíta Barbosa. O filho é mais um contraponto na trama, afinal ele é o completo oposto do pai, homossexual e drag queen. Motivo de vergonha do pai, que não o aceita, com isso a relação dos dois é frágil, pois Ramiro impõe que o menino seja “macho” e “forte”. Já Ramirinho sofre, órfão de mãe, deposita no pai a esperança de aceitação e amor, entretanto o único sentimento presente na relação é medo. Foram diversas as cenas que debateram o tema da homofobia no âmbito familiar, mas foi como Shakira do Sertão que Ramirinho pode enfrentar o seu pai e se mostrar como é. Deixo como referência, a belíssima passagem em que ele canta montado na frente do fórum da cidade, assim deixando claro o seu posicionamento perante a sua própria vida.

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Ramiro e filho em “Onde Nascem os Fortes” (foto: divulgação/TV Globo)

Em uma jogada de mestre, os escritores conseguiram fazer mais uma associação de entre a história principal e o drama de Ramirinho. Em mais um contraponto, o mulherengo Nonato foi vítima de homofobia. Em diversos capítulos, Maria reforçava a imagem de galanteador do irmão, isso já era de certa forma uma deixa para o que viria acontecer. Nonato foi morto por estar na hora e momento errados, mas além disso, vítima da não aceitação de Ramiro que forçou seu filho a matar aquele rapaz inocente. Os autores deixaram claro: homofobia mata sem ver a quem e as suas consequências são incontáveis.

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Ramirinho em cena do último capítulo de “Onde Nascem os Fortes”. (foto: divulgação/TV Globo)

Poderia passar aqui horas e horas fazendo análise dos diversos perfis, todos muito ricos e repletos de contradições. Como poucas vezes visto, “Onde Nascem os Fortes” trouxe personagens repletos de camadas, onde todas as suas atitudes eram justificadas, mesmo as mais cruéis. A direção impecável e sensível de José Luiz Villamarim, associada ao texto sútil de Moura e Goldenberg com um elenco afiado fizeram com o telespectador voltasse o seu olhar as questões mais humanas, como aceitação, maternidade, envelhecimento, traição, religião e poder.