O Sétimo Guardião: O realismo fantástico do século XXI

Aguinaldo Silva é um autor de novelas extremamente experiente, um dos mais importantes da sua geração. Foi um dos responsáveis por continuar experimentando e testando novidades, permitindo que a telenovela brasileira continue sendo uma referência tal qual ela é hoje. Entretanto o gênero não é mais absoluto no país e muitos telespectadores migraram para outras narrativas audiovisuais, especialmente as séries. Aguinaldo é um profissional atento às tendências de mercado. Inclusive em sua entrevista ao livro “Autores” da TV Globo de 2008, ele já cita série americanas, como Grey’s Anatomy e Família Soprano, como fontes de inspiração e estudo.

Longe das novelas desde Império (2014), o novelista foge completamente da curva das tramas realistas e urbanas vistas na faixa das 20h/21h nos últimos quinze anos e retorna ao realismo fantástico em O Sétimo Guardião. Fiquei animado ao saber que seria resgatada uma característica que marcou suas telenovelas nos anos 1980 e 1990, entretanto ao terminar de assistir o capítulo pelo Globoplay, senti que não vi aquilo que esperava. Entretanto isso não significa que isso seja ruim, muito pelo contrário. Evidentemente que existia uma expectativa de um envelopagem semelhante a de Tieta (1989) e, principalmente, de A Indomada (1997), mas o que nos foi entregue foi um amadurecimento da fórmula, agora bebericando em novas referências, principalmente de séries, como Stranger Things (como citado no texto de Nilson Xavier). A repaginação do realismo fantástico é intencional, pois obviamente ele ainda trará os tipos clássicos (como a beata, a cafetina, o padre, o prefeito etc) para poder fisgar o cativo público, mas ele aprofundará o elemento misterioso através dos guardiões e do gato León para poder trazer um novo telespectador, que está entretido com os seriados. Essa atualização vem com o avanço dos recursos tecnológicos, que permitem que cenas como a da mão saindo da xícara sejam mais realistas e bem feitas, além da própria evolução da própria telenovela brasileira, que está cada vez mais esteticamente próxima com o cinema, pois se utiliza de iluminação, enquadramentos e movimentações de câmera ainda mais refinados.

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Marina Ruy Barbosa em cena de “O Sétimo Guardião” (foto: reprodução/TV GLOBO)

Diferente dos apoteóticos primeiros capítulos de suas antecessoras, Segundo Sol O Outro Lado do Paraíso, que foram repletos de acontecimentos, que inclusive davam um falso ritmo frenético a trama, aqui em O Sétimo Guardião, Aguinaldo e o diretor Rogério Gomes abrem mão desse recurso, pois sabem que isso facilmente se esvazia nos capítulos seguintes. Por tal escolha, é possível que tenha ocorrido um estranhamento do público em relação a velocidade dos acontecimentos, afinal as cenas eram mais longas para poder criar a atmosfera de suspense e de terror. Por mais que toda essa estética parecesse de filme, ainda os recursos narrativos melodramáticos lá estavam presentes, como o casamento de Gabriel (Bruno Gagliasso) que não ocorreu, o trauma em relação ao abandono no altar da vilã Valentina (Lília Cabral), o ódio do pai da noiva Olavo (Tony Ramos), entre outros clichês dos folhetins. O casal de protagonistas formado por Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa ainda está se formando, até mesmo pela própria narrativa, pouco se viu deles, até mesmo de seus desafios, mas a cena final em que ela o desenterra foi uma maneira bem fora dos padrões de apresentar o casal de mocinhos juntos. Realmente algo bem inesperado, mas divertido e mostrando sim, que os folhetins eletrônicos podem escapar de seus clichês.

Como toda narrativa de realismo fantástico, o humor estará presente nos personagens secundários, sendo os responsáveis por trazerem a parte solar da narrativa. Neste primeiro capítulo, destaco a personagem de Letícia Spiller, Marilda. Com um sotaque formado de diversas regiões do país faz com que a diferencie dos demais personagens, além de seu estilo espalhafatoso, que obviamente entrará em conflito com a irmã Valentina. Falando em diferenciação, senti falta de alguma característica que demarcassem os personagens como moradores de Serro Azul, um sotaque que unisse todos, por exemplo, ficou faltando. Não digo incorporar um sotaque de alguma região específica, mas sim, ser criada uma pronúncia que estivesse na boca dos personagens, como o caso das palavras em inglês nos personagens de Greenville de A Indomada. 

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Bruno Gagliasso no final do primeiro capítulo (foto: reprodução/TV Globo)

O charme estético e o ar misterioso da trama são os principais chamarizes da trama. Quanto a história central, ainda é cedo para afirmar, afinal o foco do primeiro capítulo ficou na questão do surgimento do novo guardião. Entretanto a desistência do casamento de Gabriel soou fraca, pois ficou apenas na aparição do gato. Talvez precisássemos de mais tempo para ver a evolução dessa tomada de decisão do protagonista. Entretanto as tramas paralelas devem ser bem exploradas e parte delas já foram apresentadas, o que eu considero ser um ótimo sinal.

O Sétimo Guardião será uma homenagem e retomada ao realismo fantástico, agora repaginado. O autor convida o telespectador a embarcar em suas alegorias e crossovers com outras novelas, para que fuja da realidade e se deixe levar pelos mistérios dos guardiões. Veremos!

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Os guardiões (foto: reprodução/TV Globo)

Primeiro Capítulo: E se você viesse do passado?

Imagine a seguinte coisa: e se você acordasse e simplesmente não soubesse sobre a abolição da escravatura, não soubesse que o homem pisou na Lua, não conhecesse televisão, internet, celular, não conhecesse carros e aviões? Resumindo, e se você dormisse por 132 anos? Como você reagiria a todas essas novidades? Essa é o questionamento que a nova novela das 19h está aí para te fazer.

 

“Então isso é o futuro?” – Marocas.

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Elenco de “O Tempo Não Para”. (foto: divulgação/TV Globo)

A história de Mario Teixeira (autor de Liberdade, Liberdadee I love Paraisópolis) e direção geral de Marcelo Travessos, tem como tema principal a família Sabino, que é congelada por 132 anos, e acorda em plena cidade de São Paulo, em 2018. Os integrantes desse grupo são: o pai, Dom Sabino, a mãe, Dona Agustina, as filhas Marocas e as gêmeas Nico e Kiki, e os empregados da família: Miss Celine, Menelau, Damásia, Cairu, Bento, Cesária, Cecílio, Teófilo e o cachorro Pirata.

 

“Que abolição é essa que um homem da sua estatura tem que vasculhar o lixo para comprar um pedaço de pão?” – Dom Sabino.

 

O primeiro capítulo

Neste primeiro capítulo conhecemos a família de Dom Sabino e principalmente, o temperamento compreensivo, mas forte da primogênita, Marocas. Espevitada, a menina arruma uma baita confusão: no dia do seu baile de apresentação é vista nua (para nós, os contemporâneos, com uma camisola, quase um vestido longo) por Bento – um recém-formado em direito e poeta revolucionário.

Para livrá-la da desonra, Dom Sabino incentiva a filha a se casar com Bento, mas ela recusa e é nesse momento que eles têm a emocionante conversa:

 

“O senhor fez de mim o filho homem que sempre quis ter. Respeite-me, meu pai, porque eu sou o que o senhor fez de mim.” – Marocas

 

Como uma segunda alternativa, Dom Sabino resolve viajar com a família, para que com o tempo, toda a comunidade se esqueça do acontecido com a filha. E é nessa viagem que ocorre o inesperado: o navio para por uma turbulência e afunda.

Como toda novela que se preze precisa de uma romance, em um salto para o século XXI, o bloco de gelo é encontrado no mar e os protagonistas têm seu primeiro encontro: o bloco de gelo de Marocas se solta e ela afunda, sendo regastada pelo empresário Samuca.

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foto: divulgação/TV Globo

Temática ousada

Com a mistura de romance e uma pitada de ficção científica, “O Tempo Não Para” aposta em uma história ousada, com adereços que fogem dos fatos considerados “reais” pela sociedade. Não que isso seja algo ruim, pelo contrário, é uma bela oportunidade de inovação e afinal, esse também é um dos objetivos de uma novela: transportar o telespectador para outra realidade e fazê-lo pensar sobre a vida, de inúmeras possibilidades.

O que se espera é que o autor não se perca pelo caminho, como aconteceu em outras tramas da emissora (exemplo, Tempos Modernos) que apostou muito mais alto do que poderia e a trama acabou sem nenhuma marca registrada.

Avante ao século XXI, família Sabino. Infelizmente, se olharmos detalhadamente, alguns conceitos ainda não mudaram tanto. Mas estamos tentando.

Autora do texto:

Mariana VirgílioMariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente).

 

 

Primeiro Capítulo: A sempre atual “Vale Tudo”

Dizer que “Vale Tudo” é uma das maiores novelas da nossa teledramaturgia é cair no senso comum. É clichê. Não existe nenhuma novidade quanto a isso, afinal passaram-se 30 anos da estreia em 1988 e ela continua fiel e atualizada em sua promessa. Por incrível que pareça, ela não envelheceu da mesma forma como outras colegas de mesma década, possui ainda um frescor. É bem difícil escrever esse texto, afinal essa é uma das minhas novelas prediletas, assisti pelo box da Globo Marcas em DVD e ver agora na íntegra é de se empolgar novamente, pois ver a história completa são outros quinhentos. Ontem, o canal Viva deu o pontapé inicial com a re-reprise da novela escrita pelo trio gabaritadíssimo: Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Basséres. Depois de ter sido exibida na estreia da emissora em 2010, hoje, “Vale Tudo” reinicia com fãs ainda mais animados com esse comeback comemorativo dos 30 anos.

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Raquel e Dona Mildred em passeio turístico  (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

O primeiro capítulo é instigante, mordaz e direto. Tudo acontece. Se hoje estamos acostumados com as dinâmicas narrativas de João Emanuel Carneiro e Walcyr Carrasco repletas de reviravoltas logo no primeiro episódio, muito se deve a herança deixada por “Vale Tudo”.  Logo de cara conhecemos a índole de todos os personagens, a briga inicial, com direito a agressão, entre Raquel, a estridente personagem de Regina Duarte, e Rubinho, papel de Daniel Filho, já marcam o que virá pela frente. A cena é forte, pois já encontramos aqui dois pólos opostos: o marido mau-caráter e a esposa honesta, que suplica ajuda dele para resolver os problemas domésticos. O embate entre os dois é visto pela filha do casal, Maria de Fátima, que apenas observa a família se ruir. Quando Raquel saí da casa do marido e vai morar com o pai em Foz do Iguaçu junto da filha, ocorre uma troca nos pólos, Rubinho deixa de ser o antagonista de sua vida para a própria filha assumir esse lugar.

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Maria de Fátima dando golpe no taxista em “Vale Tudo”  (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

 

O texto é ousado, pois coloca mãe e filha em busca de objetivos antagônicos, isso sem rodeios, logo de cara para o telespectador. Raquel não enxerga a verdadeira essência da filha até o momento que leva o golpe dela, mesmo assim custando acreditar que a menina poderia vender a casa que moravam sem seu consentimento. O debate proposto pelos novelistas de “É possível ser honesto em um país de desonestos?” nasce na casa de Raquel, onde ela e Fátima vivem em constante discussão sobre princípios e valores. Os diálogos são ferozes, principalmente partindo de Fátima, vide a conversa entre ela e o avô sobre corrupção. A personagem naturaliza o que é errado, pois segundo seu ponto de vista, em um país onde todos agem dessa forma, isso deixa de ser algo incorreto, mas sim é o modo operante de seu povo. O embate entre ela e o avô é duro de se ouvir, pois ele ainda continua extremamente contemporâneo, afinal diversos pontos tocados por Salvador, papel de Sebastião Vasconcelos, ainda estão longe de se concretizar, reafirmando que muitas coisas ainda não mudaram após esses trinta anos.

A discussão levantada pelos autores é levada ao extremo é reforçada o tempo todo neste primeiro capítulo, em um tom quase de piada, no melhor estilo “o feitiço contra o feiticeiro”, Maria de Fátima leva um golpe do taxista que cobra uma fortuna por uma curta corrida, vendo que está sendo passada para trás, ela resolve aplicar uma para cima do motorista. A jovem prolonga a corrida, fazendo diversas paradas até que em uma delas, não retorna mais ao carro e o deixa com uma caixa de presente, onde dentro tinha uma banana. O gesto da banana é tão potente, que os autores repetem ela no último capítulo com a fuga de Marco Aurélio, do Brasil, fazendo um banana para o Rio de Janeiro. Gilberto Braga e seu time já revelam que aqui: o golpista tem vez e ainda por cima tem que tomar cuidado com os outros, pois a rasteira pode vir de seu semelhante.

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A banana de “Vale Tudo” (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

“Vale Tudo” não é uma trama esteticamente bonita, produzida antes da revolução de fotografia de “Pantanal” da TV Manchete (1990), ainda seus cenários são muito escuros e repletos de sombras, mas nada disso tira o seu brilho que está exatamente no mais importante: o texto. É imprescindível reiterar isso, mas são os diálogos os responsáveis por tornar essa novela tão presente na memória afetiva do público, pois eles ainda funcionam e muito. Tomamos como exemplo a cena que Fátima incentiva a mãe a sair com o homem mais velho, rico e até mesmo casado, inclusive a chama em um tom nitidamente debochado de “até que você é bonitinha”. A filha menospreza a mãe sem pudor algum, achando inclusive que está fazendo um elogio. Importante dizer que a novela não vive só do texto, mas sua montagem tem tiradas para lá de eficientes e repletas de críticas, a que mais chama atenção nesse primeiro capítulo é quando Raquel está discursando sobre a honestidade do povo trabalhador brasileiro, mas que em seguida corta para a cena da personagem Aldeíde, de Lília Cabral, roubando papel higiênico e sabonete do banheiro da empresa onde trabalha, pois sabe que o salário não vai render o mês todo. Portanto a tese dos criadores é: ninguém está ileso de ser desonesto neste país.

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Aldeíde roubando o papel higiênico da empresa (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

Mesmo ainda escrita em um final de censura, “Vale Tudo” é transgressora e toca em diversas feridas ainda abertas do comportamento brasileiro. Aqui não existe a intenção de passar a mão em nenhuma classe social, todos são responsáveis pelo país que vivemos e é essa é tese defendida pelos autores. Essa é uma das características que faz com que ela ainda seja tão atual, pois o Brasil de 2018 ainda é o mesmo de 1988 em diversos aspectos. Neste primeiro capítulo, vimos diálogos duros, mas foi possível rir e chorar de nossa própria desgraça, até mesmo beber um gin tônica com Maria de Fátima (e a gente achando que tinha sido a Beth de “O Outro Lado do Paraíso” a precursora do hábito). Mas quanto a obra do gênero novela, temos um folhetim com um grande texto, excelentes interpretações e ritmo que não deve a nenhuma outra da era dos seriados.

Primeiro Capítulo: a colorida e ritmada “Segundo Sol”

Clássicas e releituras da axé music embalam ensolarado primeiro capítulo de “Segundo Sol”.

Pode esquecer a paleta de cores em tons terrosos, os figurinos com tecidos grossos, casacos pesados e chapéus da trama de Walcyr Carrasco, eles ficaram definitivamente para trás. Agora na trama de João Emanuel Carneiro entram as cores e a alegria baianas, impulsionados pelo axé music dominando as cenas de “Segundo Sol”, a novela das 21h que estreou hoje (14/05).

Como marca de suas obras, o novelista apostou em um primeiro capítulo ritmado e extremamente focado no núcleo principal. O telespectador pode compreender claramente qual era o contexto do decadente cantor de axé Beto Falcão, vivido por Emílio Dantas, naquele ano de 1999. Tanto na sua vida pessoal, como a profissional estavam indo de mal a pior. Com uma carreira declinando, Beto se vê quebrado, com dívidas causadas por seu trambiqueiro irmão Remy, papel de Vladimir Brichta, além disso, para piorar a situação, se vê abandonado pela interesseira namorada Karola, interpretada por Deborah Secco, que não aceita vê-lo ver sua carreira desmoronar.

Beto é um rapaz de bom coração, como todo bom mocinho deve ser. Influenciado pelos gananciosos Remy e Karola, ele aceita simular a própria morte, mesmo sabendo que se trata de um crime, em troca do dinheiro que será feito com o seu falso falecimento, afinal percebeu a comoção nacional causada pelo incidente. A dupla de amantes possui  uma boa sintonia em cena, os atores estão excelentes em cena e funcionam como par, com um tom que caminha entre o deboche e a piada, os vilões apresentam uma estrutura de comédia que parece combinar com enredo (pelo menos nesse primeiro capítulo). Karola já desponta com uma promessa de uma excelente vilã, devido à direção Dennis Carvalho, a personagem parece uma evolução maligna de Darlene de “Celebridade”- atualmente no “Vale a Pena Ver de Novo” que também foi dirigida pelo diretor – afinal ela é sexy, iludida com a fama, destrambelhada e carismática.

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Vladimir Brichta e Deborah Secco, respectivamente, como Remy e Karola (foto: Divulgação-TV Globo)

A segunda parte do primeiro capítulo, foca na fuga de Beto Falcão para Boiporã, quando aluga um quarto na casa de Luzia, personagem de Giovanna Antonelli. Já sob o falso nome de Miguel, passa a viver na casa da marisqueira, com o seu jeito simples e dócil, conquista o carinho dos filhos dela, mas principalmente o da própria Luzia. De forma bem dinâmica, foi mostrada toda a construção da relação de amor entre Luzia e Miguel/Beto, até o momento em que eles comunicam que irão casar. Como característica das narrativas de JEC, onde tudo acontece muito rapidamente, os vilões já armaram uma resposta ao efêmero romance dos protagonistas. Quando Remy visita o irmão na ilha, descobre do relacionamento e dos planos de casamento dele, o invejoso irmão já comunica Karola, que resolve fazer uma visita ao namorado. A personagem de Deborah Secco fala para Luzia que está grávida do cantor e que está procurando ele para dar a notícia, além disso também se apresentou como noiva dele. Entretanto a mocinha da novela tinha recém-descoberto sua gravidez. Desiludida com a situação, Luzia parece acreditar em Karola, mas o desenrolar dessa história saberemos com os próximos capítulos.

A rapidez como tudo se deu, principalmente em relação ao casal de protagonistas se deve muito a química entre os dois. Antonelli e Dantas formam um casal que passa verdade ao telespectador. Giovanna parece ter sido uma escolha acertada, de certa forma, para o papel, devido ao estilo da personagem que combina com ela e pela combinação com Emílio, porém não se pode negar que faltou sim uma atriz negra para viver o papel. A tentativa de minimizar a situação colocando Luzia à la “Gabriela Cravo e Canela”, como definido pelo crítico Maurício Stycer, soou falsa no final das contas. No caso de Emílio também foi uma decisão bastante acertada, o ator aparenta estar seguro no papel, além de ser bastante carismático e convincente quanto cantor, possui a malemolência, boa voz e presença necessárias.

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Beto e Luzia em cena (foto: Divulgação/TV Globo)

Em um outro tempo e lugar, o novelista parece recuperar o universo ficcional de “Avenida Brasil”, o café da manhã na casa dos Falcão, com direito à um belo de um barraco nos lembrou os tempos de família Tufão. Diferente da direção de Amora Mautner, onde as brigas aconteciam com todo mundo falando simultaneamente, Dennis Carvalho e Maria de Médicis privilegiaram uma direção mais clássica, deixando cada um falar no seu tempo. Se tratando da família Falcão pouco foi mostrado até o momento, Arlete Salles e José de Abreu possuem potencial de levar o núcleo Falcão longe. Fico feliz com o retorno de Arlete as novelas, realmente é uma atriz que faz falta no gênero.

Mesmo com o foco sendo basicamente em Beto, Remy, Karola e Luzia, outra personagem brilhou em sua rápida primeira aparição: Laureta, a cafetina de luxo interpretada por Adriana Esteves. Com um visual bem impactante e falas prontas para se tornarem virais, Laureta tem potencial para ir distante e repetir a dobradinha de sucesso entre Adriana e JEC. Existe um ar de mistério entre Laureta e Karola, sua ex-agenciada. É possível notar uma certa relação de domínio, uma tensão ainda não bem esclarecida, que parece ser um dos nortes de “Segundo Sol”. Falas como: “Te fiz um favor” se referindo ao fato de ter influenciado o término do relacionamento entre Beto e Karola e “Quem fez uma vez, faz de novo”, se referindo a prostituição já demonstram que ela será uma vilã objetiva, onde tempo e dinheiro andam sempre lado a lado. Em entrevistas, João Emanuel disse que a ação da vilania será revesada entre as duas, aparentemente é o que vemos já nesse primeiro capítulo, que quem fez tudo andar foi Karola, ainda Laureta está nos bastidores – por enquanto.

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Trio elétrico de Beto Falcão no Carvanal de 1999 (foto: Divulgação-TV Globo)

Além dos personagens, outro fator que chamou muita atenção nesse capítulo e ajudou na contextualização dessa Bahia do final dos anos 1990 impulsionada pelo axé music foi a trilha sonora. O capítulo já mostra imagens com os trios elétricos do Carnaval de Salvador ao som da clássica “Canto da Cidade” na voz de Daniela Mercury. Entretanto a direção não apostou apenas em versões originais da época, mas a trilha sonora da novela é composta por regravações de grandes músicas do gênero como “Me Abraça” e “Vem Meu Amor” da Banda Eva, que ganharam versões repaginadas, respectivamente adaptadas por ANAVITÓRIA e Wesley Safadão. Até uma versão em inglês foi feita, no caso a escolhida foi o hit “Swing da Cor” de Daniela Mercury que foi revisitada por Ikoko, duo italiano de música eletrônica. Quando foi noticiado sobre as novas versões, houve uma torcida de nariz de parte do público, com destaque para os mais saudosistas, mas em cena foi notado o quão importante elas foram para estabelecer o clima entre aquele período e os dias atuais. A mescla entre as originais e os covers deram um frescor, impossibilitando que a trama viesse a ficar com um aspecto datado. A escolha do repertório ajudou no reforço do universo ficcional do novelista, voltado ao popular, algo bem semelhante ao visto em “Avenida Brasil”.

Em resumo, JEC apostou em uma história de amor direta, sem muitas firulas, levando o telespectador exatamente para o centro do furacão Beto Falcão. Diferentemente de outras tramas mais complexas do autor como “A Favorita” e “A Regra do Jogo”, o novelista deixou de lado as passagens mirabolantes para focar unicamente no desenrolar, rápido e eficaz, da trajetória do cantor. A apresentação dos personagens foi inteligente, com destaque para as personalidades carismáticas de Beto, Remy e Karola, em que os atores estão excelentes em seus papéis. O primeiro capítulo deixou com uma vontade de quero-mais de Laureta. Quanto a Luzia, ainda ela está no início da trajetória da heroína, mas entre os personagens apresentados é a menos interessante, pelo menos por enquanto. Vamos aguardar o desenrolar dessa trama que parece resgatar mais uma vez o bom e velho novelão.