Ação e debate sobre honestidade definem os caminhos de “Segundo Sol”

Durante as entrevistas de lançamento de “Segundo Sol”, João Emanuel Carneiro afirmou que a sua nova trama estaria mais próxima de suas obras anteriores “Da Cor do Pecado” (2004) e “Avenida Brasil” (2012). Com essa primeira fase que acabou na última quarta-feira (23/05), o novelista realmente pôde comprovar seu ponto, os nove capítulos da primeira fase da história foram movidos por muita ação, em nenhum momento o telespectador ficou entediado com a loucura que se tornou a vida de Beto Falcão e Luzia graças aos planos nada simpáticos de Karola, Laureta e Remy.

Assim como suas outras novelas, as protagonistas penaram e muito nas mãos de seus algozes. A Preta de “Da Cor do Pecado”, vivida por Taís Araújo, foi vítima direta do ódio de Bárbara – aqui interpretada, pela hoje mocinha, Giovanna Antonelli, assim como Rita/Nina, a personagem de Débora Falabella, em “Avenida Brasil”, que foi jogada no lixão por sua ex-madrasta Carminha, de Adriana Esteves. Já em “Segundo Sol”, o autor repete a sua fórmula de novelão com pitadas de seriado, colocando em todos os finais dos capítulos algum bom gancho que faz com que você queira assistir na noite seguinte. Nesse meio tempo, Luzia se apaixonou por Miguel, quase fugiu com ele, foi enganada, matou acidentalmente o ex-marido, perdeu os filhos, teve uma gestação escondida, foi julgada, presa e até fugiu do país para a Islândia. O prólogo triunfou as vilanias e colocou em maus lençóis a protagonista.

JEC escolheu saídas narrativas clássicas do folhetim como: triângulos amorosos, falsa gravidez, mentiras e amantes. Mesmo se utilizando de recursos já velhos conhecidos do público que acompanha o gênero, o autor não deixou de incluir características das séries, algo muito presente em suas obras. Tudo se resolve rapidamente e a narrativa tem muito ritmo, nenhuma questão leva muitos capítulos para ser resolvido. Isso se deve também as muitas passagens de tempo desse primeiro momento, responsáveis por darem ainda mais agilidade a trama, fazendo com que o telespectador (principalmente o do Twitter) questionasse se o autor fosse capaz de manter esses inúmeros ganchos ao longo dos capítulos restantes. Outra marca registrada do novelista é focar em um primeiro momento apenas no núcleo principal, portanto só nos foi apresentado o drama de Luzia e Beto, assim como a família Athayde. Esses dois são fundamentais para o desenvolvimento da narrativa, afinal é com eles que se encontram os filhos da protagonista, Manu e Ícaro.

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Luzia, agora Ariella e Groa (foto: reprodução/TV Globo)

O capítulo inicial da segunda fase reforça ainda mais esse ritmo. Sendo bem direto, o autor traz as angústias e o contexto de Manu e Ícaro após dezenove anos. Agora os irmãos interpretados por Luisa Arraes e Chay Suede demonstram suas insatisfações com o rumo de suas vidas, sem mostrar cenas de infância e adolescência, JEC preferiu explicar tudo diretamente em diálogos, em cenas do cotidiano. Manu mostra sua relação problemática com a família Athayde, principalmente a relação conturbada com a irmã Rochelle, interpretada por Giovanna Lancelotti. Além de não ter o sentimento de pertencimento por aqueles que a adotaram, Manu não demonstra nenhuma conexão com rico estilo de vida de sua família adotiva. Já por meio de um comportamento de bad boy, Ícaro apresenta uma relação nada amigável com a tia Cacau, vivida por Fabíula Nascimento, as falas fortes demonstram que o rapaz tem rancor da tia por ter separado os irmãos. Tanto Manu, quanto Ícaro são personagens bem densos, que podem ter suas camadas psicológicas aprofundadas com o passar dos capítulos, o passado dos dois marcado pela ausência da mãe e as educações tão distintas que receberam serão responsáveis por boas cenas com eles.

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Chay Suede e Luisa Arraes como Ícaro e Manu (foto: reprodução/TV Globo)

 

O novelista também não tomou muito tempo para contar a ascensão meteórica de Luzia como Ariella, poucas explicações foram feitas e para o momento foram suficientes para fazer com que ela retorne para Salvador à procura de seus filhos. Luzia/Ariella se apresentou na Islândia, voltou para o Brasil, tomou banho de mar, encontrou Cacau em uma das cenas mais intensas do capítulo e ainda tocou em uma festa. Tudo rápido, direto, como se estivesse tirando um curativo, João Emanuel foi prático sem muitas firulas. Até mesmo as vilãs passaram pela mesma lógica, Laureta cada vez mais poderosa como cafetina foi mostrada como ela ainda mantem o mesmo esquema de aliciamento para a prostituição, enquanto isso Karola é mostrada como uma mãe devotada ao filho Valentim, interpretado pelo ator Danilo Mesquita, e a viúva dedicada.

Além de todos esses acontecimentos intensos, o novelista determinou, principalmente, o tema da trama através do personagem de Beto. Foram exibidas duas cenas fundamentais para escancarar um dos questionamentos essenciais de “Segundo Sol”, que é o debate sobre honestidade e caráter. A primeira delas é com seu filho Valentim, que não sabe que Miguel é na verdade Beto, seu pai amado e adorado, por isso acaba discutindo com ele, chamando-o de oportunista, por passar os dias bebendo cerveja e fazendo compras, se aproveitando do dinheiro dos direitos autorais do “falecido” cantor de axé. Essa relação conturbada entre pai e filho, disfarçada de padastro e enteado mexem com Beto, que parece viver em um modo automático. Essa comodidade é debate entre outra conversa de pai e filho, mas desta vez, entre Beto e Seu Nonô, papel de José de Abreu, que não aceita a condição de mentira que a família acatou em função do dinheiro.

Nessas duas cenas, JEC abre uma discussão sobre o limite da honestidade, mas que não paira apenas na família Falcão. Muito pelo contrário, todos os personagens apresentam alguma outra face não tão boa, isso também se reflete muito na família Athayde, em todos os seus membros, que se aproveitaram da situação de Luzia para arrancar Manu e garantir a felicidade deles próprios, sem se preocupar com o futuro da mãe dos meninos ou mesmo com o outro irmão da garota. Os personagens trazidos por JEC são muito humanos e por isso muito carismáticos, você compreende o debate interno levantado por eles, portanto esqueça os chapados personagens de “O Outro Lado do Paraíso”, extremamente maniqueístas, aqui o autor trás seres ficcionais repletos de contrastes, ninguém é completamente bom ou mal, eles são humanos. Toda a narrativa está repleta de anti-heróis, começando por próprio Beto que aceita o fato de sua falsa morte confortavelmente, afinal entra dinheiro e muito, que faz com que ele se cale. Por mais que tenha tido influência de Karola e Remy, a decisão final ainda continuou sendo do próprio cantor e ele é o principal responsável por toda as suas escolhas no final das contas. Além dele, temos Roberval, interpretado por Fabrício Boliveira, que vai em busca de uma nova vida, mas acaba escolhendo um caminho não tão honesto, assim como Karola, Remy e até mesmo Luzia. Todos possuem alguma falha.

No ano de aniversário de 30 anos de “Vale Tudo”, “Segundo Sol” vem repetir a discussão da novela de Gilberto Braga e Aguinaldo Silva,  de certa forma utiliza da máxima de “É possível ser honesto em um país de desonestos?” para poder contar a sua história. Afinal ninguém ali se escapa de alguma falha de caráter, o pobre não é imaculado e livre de erros, assim como o rico não é apenas o grande vilão, ambos apresentam deslizes e acertos. A discussão levantada pela atual novela, não chega a ser tão escancarada quanto a trama de Maria de Fátima e Raquel, mas ainda assim toca nas mesmas feridas de três décadas atrás, mostrando que esse assunto sempre é atual na sociedade brasileira. Torcer para que essa discussão não acabe por aqui, mas ainda sirva de pano de fundo para os muitos arcos de “Segundo Sol”.

Mito do Herói: a força de Maria em “Onde Nascem os Fortes”

Há quase um mês no ar, “Onde Nascem os Fortes” já se mostrou ser uma trama para quem tem estômago forte. A supersérie, como é classificada oficialmente pela Globo, reitera o seu título o tempo todo na narrativa de Maria, personagem de Alice Wegmann, que enfrenta os poderosos do sertão para descobrir alguma informação sobre paradeiro de seu irmão gêmeo desaparecido Nonato, interpretado por Marcos Pigossi. A jornada da protagonista não é nada fácil, em quase quatro semanas no ar, ela já passou por diversas situações tensas: escapou de uma tentativa de estupro, para se defender acabou matando um dos capangas de seu inimigo, fugiu escondida na traseira de um caminhão, refugiou-se em diversos lugares, montou um bando para ajudá-la no seu plano de vingança, levou um tiro no braço, sobreviveu e agora até roubar um caminhão foram uma das ações de Maria. Sim, o sertão é para os fortes.

Maria é filha do sertão, mesmo sendo criada no Recife, sua mãe Cássia, vivida por Patrícia Pillar, nasceu na região. Com um mistério ainda não revelado, a mãe dos gêmeos não possui boas lembranças do tempo em que vivia lá, muito por causa desse passado, sempre relutou a viagem dos filhos para o sertão. Maria não nega ser filha de Cássia, muito da coragem da menina vem de sua mãe. Devido a idade, a jovem possui uma carga de rebeldia maior, que faz com que enfrente seus inimigos de forma bem mais destemida e irresponsável.

“Onde Nascem os Fortes” é uma história de mulheres valentes que buscam quebrar as barreiras do conservadorismo, Maria e Cássia são suas principais expoentes. Em um ambiente predominantemente machista, as duas encaram de frente os poderosos homens da região, como o empresário de minério Pedro Gouveia, vivido por Alexandre Nero, o juiz Ramiro, papel de Fábio Assunção e o delegado  Plínio, interpretado por Enrique Díaz. Os três são nojentos, prepotentes, dominadores, anti-éticos, misóginos, entre outras características nada agradáveis. Acreditam que no controle do homem perante as mulheres, além disso enxergam as mulheres como meros objetos de seus desejos. O conservadorismo desses homens se chocam com o comportamento nada submisso de mãe e filha, por isso ambas causam uma estranheza nessas figuras tão antiquadas, que enxergam as duas sob olhares de raiva, ódio e até mesmo, curiosidade.

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Alice Wegmann e Patrícia Pillar em cena de “Onde Nascem os Fortes”.                                           (Foto: Divulgação/TV Globo)

Mesmo sendo uma supersérie e com uma direção bem arrojada, no fundo a história de Maria é uma dramalhão clássico, pois apresenta um dos temas mais universais de todos: a vingança. A jovem busca justiça pelo acontecido com seu irmão, portanto aniquilar seu rival, Pedro Gouveia, é essencial. Para atingir tal objetivo, Maria não mede esforços, coloca seu plano em primeiro plano, para isso abandona o grande amor – filho daquele a odeia. Para piorar seu cenário, ela sabe que seu inimigo é cúmplice da polícia local, portanto conclui que não pode contar com os meios oficiais para resolver a sua situação, portanto a sua única saída é a ilegalidade. Já que não se pode contar com a lei, passa agir contra ela. Pode-se concluir que Maria é uma anti-heroína das mais ousadas.

Conforme definido por Christopher Vogler em “A Jornada do Escritor”, o herói precisa passar por diversas adversidades para evoluir. Os oponentes de Maria são mais poderosos que ela, possuem melhores armas, são mais bem articulados e possuem respaldo financeiro e político, portanto todos os ataques feitos contra ela, são responsáveis por transformarem e deixarem ela cada vez mais resistente. O autor da jornada do herói afirma que quanto mais o protagonista sofre nas mãos dos vilões, mais pronto ele ficará para enfrentá-los em mesmo pé de igualdade. Ainda em seus primeiros 30 capítulos, Maria está em seu processo de desenvolvimento, primeiramente compreendendo sua importância como força motriz nesse jogo de poderes do sertão. O fato de ser uma pessoa de fora, “da cidade grande”, assim como ser mulher são fatores fundamentais para que ela se torne alvo de Pedro e delegado Plínio.

Para reforçar a ideia de heroína do sertão, a direção optou por fazer uma Maria sem vaidade. Antes do desaparecimento de Nonato, a protagonista já aparecia com um visual mais despojado, sem tanta maquiagem, algo bem natural. Após todo o desenrolar da personagem, ela passou a utilizar peças dos colegas de bando, camisetas, blusas e calças masculinas passaram a compor seus figurinos. As roupas são confortáveis para facilitar as ações de fuga e o calor da região. De certa forma, através de suas novas vestimentas  buscam reprimir qualquer exposição de vulnerabilidade, pois em sua nova fase, a única questão que realmente importa é a sede de justiça.

O ambiente seco e árido faz com que a personagem desenvolva uma rigidez própria. Crie uma camada dura em relação ao mundo e aos seus acontecimentos. Maria por mais impulsiva que seja em diversos momentos, pois é uma característica nata de sua personalidade, acaba por viver uma fase muito menos emotiva, mas sim extremamente racional. Um exemplo dessa priorização do pensamento é quando ela renega todo o seu relacionamento com Hermano, papel de Gabriel Leone. Por mais que se amem, ele ainda é filho de seu maior inimigo, Pedro Gouveia, por isso prefere se afastar do rapaz. É importante ressaltar ainda que a estrutura básica do folhetim romântico se encontra na narrativa de “Onde Nascem os Fortes”, porque ela também sofre por amor. Inclusive acaba se posicionando em um triângulo amoroso, pois desperta a paixão de Simplício, personagem de Lee Taylor, que faz parte de seu bando. O triângulo amoroso é outra temática atemporal dos folhetins em capítulos.

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Lee Taylor (Simplício), Alice Wegmann (Maria) e Gabriel Leone (Hermano) (foto: Divulgação/TV Globo)

Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg trazem em Maria e seu bando a imagem de um cangaço moderno e atualizado, onde a mulher é a líder. Junto com Simplício e Mudinho, personagem de Démick Lopes, vivem uma releitura do cangaço – que em sua definição tradicional segundo estudo de Maria Luiza Tapioca Silva  era um local que homens e mulheres obedeciam às normas estabelecidas e ofereciam parceria, confiança e fidelidade entre os membros. Maria, Simplício e Mudinho se uniram para proteger uns aos outros e também vingarem do poderoso Pedro Gouveia. Mesmo sendo inexperiente na região, Maria despenha papel de elo e liderança no grupo.

“Onde Nascem os Fortes” traz duas personagens femininas muito fortes, mãe e filha que buscam cada uma de sua maneira lutar pela história de Nonato. Enquanto Cássia vai atrás dos meios legais, aproveita seu tempo na busca por melhorar a vida das famílias que vivem na seca. Devido a sua própria experiência pessoal, Cássia é articulada e mais racional do que a filha, por mais que sinta o medo de perder os dois filhos a consuma por completo, consegue agir de maneira mais fria e consciente. O fato de ter criado os gêmeos sozinha faz com que ela aja como uma leoa, que busca defender seus filhos das calúnias que circulam pelo sertão. Essa força interna da personagem também reflete diretamente na personalidade valente de Maria.

Até o momento a supersérie nos mostrou uma protagonista sem medo de enfrentar as sombras de seu caminho. Ciente de sua sexualidade, inteligência e de articulação, Maria acredita que os fins justificam os meios em busca de justiça. Uma anti-heroína porreta e repleta de atitude, que não se deixa abater pelas ações de seus algozes. Talvez por isso, ela seja uma protagonista tão corajosa que faz com que o público torça por sua felicidade e consiga vencer o seco sertão dominado pelos seus figurões conservadores e totalitários.

O Outro Lado de Sophia?

A personagem de Marieta Severo manipulou, mentiu e matou diversos personagens, mas a fica a dúvida se ela entrou para o hall das grandes vilãs da teledramaturgia nacional.

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Sophia (Marieta Severo) em seu julgamento nos último capítulos de “O Outro Lado do Paraíso” (foto: reprodução)

Desde as primeiras chamadas de “O Outro Lado do Paraíso”, foi mostrado ao público que a vilã de Marieta Severo, Sophia, não estaria para brincadeira. Junto de sua filha, Lívia, interpretada por Grazi Massafera, seriam as grandes vilãs responsáveis por transformar a vida da protagonista Clara, personagem de Bianca Bin, em um verdadeiro inferno. Sophia manteve a personalidade má e cruel durante toda trama, diferente de sua filha (não-filha), que amoleceu o coração após se apaixonar pelo garimpeiro, Mariano (Juliano Cazarré). Walcyr Carrasco garantiu o chapéu de vilã para Sophia e não tirou dela em momento algum.

Na história da teledramaturgia nacional, muitas vilãs eram mães e seus filhos eram responsáveis por demonstrar suas vulnerabilidades, vide casos de Nazaré Tedesco em “Senhora do Destino” e Perpétua em “Tieta”, entre outros. Entretanto Sophia não era uma delas, seus filhos e até mesmo o neto nunca passaram de meros instrumentos para seus planos de arrancar as minas de Clara e destruir todos aqueles que eram seus inimigos. Nos primeiros capítulos, ela já envenenava a cabeça do desequilibrado Gael, papel de Sérgio Guizé, que acabava bebendo demais e batendo na até então esposa, Clara. Lívia foi uma aliada apenas no começo da trama, principalmente com o roubo de Tomás, filho de Clara e Gael, que foi criado por ela como seu. A personagem de Grazi Massafera ajudou a mãe no plano de colocar Clara no manicômio, mas depois acabou virando presa fácil de Sophia, afinal era a megera que tinha a guarda oficial do menino Tomás. Por último, a renegada Estela, papel de Juliana Caldas, a filha anã de Sophia era odiada pela mãe devido a sua condição. Sem nenhuma melhora no relacionamento entre as duas, durante toda a trama, Sophia caçoou, xingou, brigou com a filha em diversos momentos, demonstrando nenhum tipo de carinho.

A falta de afeto da mãe para os filhos foi crucial para que o público visse a personagem como uma vilã de fato, típica de desenhos animados. A família da personagem representava apenas um meio para obtenção de seus objetivos, não só por cada um desempenhar uma função estratégica em suas artimanhas, como também formavam um clã apresentável para a sociedade de Palmas. A exclusão da filha anã era proposital, afinal ela na cabeça da mãe e da preconceituosa alta sociedade local, Estela sujava o glamour que os Montserrat representavam.

 

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Lívia (Grazi Massafera), Sophia (Marieta Severo), Gael (Sérgio Guizé, Estela (Juliana Caldas) – centro. (Foto: divulgação/TV Globo)

 

Muito de sua personalidade combinada com o passado sofrido, Sophia sabia se colocar em uma posição de liderança, principalmente perante aos homens. Ela disputava poder com eles de igual para igual, muitas vezes, em um lugar superior ao deles. Em Palmas, Sophia comandava uma verdadeira quadrilha que favorecia suas falcatruas, tinha em suas mãos o juiz Gustavo (Luís Melo), o delegado Vinicius (Flávio Tolezani) e o psiquiatra Samuel (Eriberto Leão). Todos de alguma forma estavam presos nas mãos dela, que sabia chantageá-los muito bem para não precisar pagar pelos seus atos ilícitos. A megera não jogava de frente apenas com os grandes figurões, devido ao seu passado na prostituição, aprendeu a como lidar com os mais diferentes tipos, facilitando assim a sua forma de administrar tão bem o garimpo, durante uma boa parte da narrativa. Sophia passava muito tempo com seus garimpeiros, chegava inclusive a beber e jogar cartas com eles. Ela não só se divertia, como também adorava dar o golpe neles, para que pudesse mantê-los ainda mais próximos à ela, sem nenhuma tentativa de escapatória. Sophia fazia jus a ao ditado “o gado só engorda aos olhos de seu dono”, portanto vivia em Pedra Santa de olho em suas esmeraldas. Seus atos eram boa parte premeditados, por isso sempre estava perto das minas para não ser roubada pelos seus funcionários. Com muito jogo de cintura e firmeza, ela conseguiu impor respeito na mina e quem trabalhava nela. Mesmo em um ambiente extremamente machista, Sophia contornou a situação ao seu favor, fazendo com que ela se tornasse cada vez mais poderosa e temida. Marieta Severo soube imprimir esse tom irônico e sarcástico na personagem de maneira brilhante, sem que isso soasse falso, mas sim reforçando o status da vilã.

A antagonista de “O Outro Lado do Paraíso” não apresentava fraquezas ou traços de humanidade em seu caráter. A durona Sophia permaneceu assim durante toda a trama, até mesmo em seu julgamento final com o rosto paralisado por um AVC, não teve sua resistente carcaça desmoronada (apenas com o veredito final, que mostrou mais uma vez o seu descontrole). Se com a família e o trabalho, ela não demonstrava nenhum sentimento, um dos poucos momentos que foi registrado essa fragilidade foi durante o seu relacionamento com o chefe do garimpo, Mariano. As idas e vindas do casal foram responsáveis por diversos atritos e até questionamentos internos de Sophia, muitas vezes relacionado a sua beleza e idade, afinal era bem mais velha que seu amante. Entretanto viu seu mundo desmoronar quando descobriu que Mariano não tinha mais interesse nela, mas sim em sua filha Lívia. A derrocada de Sophia começa a partir deste momento, afinal ela se deixa levar por um amor o qual não é correspondida. Com o namoro entre Lívia e Mariano, Sophia rompe relações com a falsa filha, que acaba se virando contra a mãe.

A novela de Walcyr Carrasco foi construída de forma bem maniqueísta, em boa parte do tempo. A vingança da protagonista Clara, mesmo com algumas cargas de anti-heroísmo devido aos seus planos mirabolantes, não fizeram com que a personagem se perdesse em sua própria sede de fazer justiça com as próprias mãos, como o ocorreu com Nina, a personagem de Débora Falabella em “Avenida Brasil”. Clara foi boa em toda a novela, sofrendo em um quarteto amoroso, disputando judicialmente a guarda do filho e o carinho dele, entre outras coisas, a personagem sofreu sofreu sofreu como uma mocinha clássica do folhetim. Já Sophia foi uma vilã digna de desenho animado. Maldosa em todos os momentos, a personagem só pensava em esmeraldas e destruir a vida de Clara, qualquer outra ideia passava longe ou era pouco explorada pela mente doentia dela. Com uma tesoura na mão foi capaz de executar diversas pessoas (combinamos que nenhum deles de grande importância para o rumo da trama, exceto Mariano – que milagrosamente sobreviveu), em uma espécie de revival de Lívia Marine – a vilã da agulha vivida por Claudia Raia em “Salve Jorge”. Nesses assassinatos impulsivos, Sophia revelou que não aguentava mais a pressão na qual estava submetida. Se em um passado não tão distante, vimos vilões que causaram comoção no público por suas atitudes ambíguas de amor e ódio, como Carminha e Félix, Sophia só estimulou no público um sentimento: raiva. Portanto atingiu perfeitamente seu objetivo, afinal ninguém em hipótese alguma gostaria que a algoz de Clara se desse bem no final ou passasse por uma redenção.

Se em demais tramas, acompanhamos vilões com que pudéssemos criar algum tipo de identificação, com Sophia foi exatamente o oposto, desenvolvemos repulsa. Atingiu exatamente aquilo proposto pelo novelista. Em seu julgamento final, Sophia é diagnosticada como psicopata, infelizmente, uma conclusão rasa pelo o que a personagem representou, longe de apresentar uma psicopatia nos moldes de Flora, papel de Patrícia Pillar em “A Favorita”. A personagem de Marieta Severo foi desenvolvida pela forma mais clássica do folhetim, como um verdadeiro dramalhão, o autor determinou os bons e os ruins, separou o joio do trigo, com isso a vilã foi má o tempo, sem respiros. Em entrevista ao site GShow, Walcyr Carrasco confirmou que a novela retomou uma estrutura antiga, de um típico melodrama. Os mocinhos são bons até o final, enquanto os vilões são completamente mals e pagam pelos seus atos no final.

Se Sophia será lembrada no futuro como uma das grandes vilãs da teledramaturgia, apenas o tempo dirá. O que se pode concluir por enquanto é a importância do vilão no desenvolvimento do herói e como que ainda assim o melodrama clássico ainda tem espaço, e principalmente, força com o público brasileiro.

Você gostou da Sophia? Do final de “O Outro Lado do Paraíso”? Comente aqui!

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Marieta Severo como Sophia (foto: divulgação/TV Globo)

Primeiro Capítulo

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Mercedes (Fernanda Montenegro) deixa sua mensagem em “O Outro Lado do Paraíso” (foto: reprodução)

Depois de muito tempo sem poder acompanhar decentemente uma novela devido aos quatros anos de faculdade, finalmente consegui retomar o hábito de assistir a uma história diária (ok, que de forma bem diferente com as facilidades do on demand), mas assisti “O Outro Lado do Paraíso”. No começo, me pegou de jeito, acho que estava com saudades do “ver telenovela”, depois em alguns momentos dei uma abandonada, nem se quer acompanhava no GloboPlay, exceto grandes momentos, como os intermináveis julgamentos. Quando assisti o capítulo final, pelo aplicativo, pois não pude ver na hora, me reascendeu a vontade de escrever sobre novela.

 

Em 2017, fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre vilãs de telenovela. Um estudo que me deu a honra de poder assistir “Vale Tudo”, “Tieta”, “A Indomada”, poder rever diversas tramas que fizeram parte da minha infância, como “Celebridade” e “Páginas da Vida”. Reassisti boa parte dos capítulos com gosto, com vontade de quero mais, pude aproveitar meus raros momentos de lazer vendo “Por Amor” no Canal Viva. E sempre com aquela vontade de comentar os capítulos, maratonar no sofá de casa nos dias livres ou nos meus horários de almoço. Na época tinha meu orientador para conversar e se debruçar sobre as tramas, agora em 2018, me deu um vazio, comentar no Twitter e com os amigos (os poucos que assistem) já não me bastava mais. Me sentia incompleto.

Com o final da história de vingança de Clara contra Sophia, fiquei “fritando” muito os pensamentos sobre a qual razão eu não me apeguei a personagem de Marieta Severo, me questionei se o público gostava da trama e por que eles acompanhavam o novelão, no sentido mais clássico da palavra. Depois de muito tempo matutando, pensei “Vou fazer um blog!”, pensei em fazer um canal no YouTube também (esse ainda preciso pensar mais um pouquinho).

Para quem gosta de telenovela, pode ser um prato cheio. Quero comentar, ouvir dos amantes do gênero o que acham, o que esperam, suas angústias e suas alegrias. Adianto aqui que meu foco serão as novelas das 21h e 23h, assim como algumas reprises do Viva (estou animadíssimo em reassistir “Vale Tudo”). Para quem for de São Paulo, podem me convidar para assistir a novela na casa de vocês ou tomar um café para debater e relembrar outros títulos. Manter a história viva do folhetim eletrônico é sim refletir muito também sobre nossa sociedade.

Vou me dedicar mais ao assunto e tentar aprender mais!

Tentarei trazer novidades sempre que possível.

Espero que me acompanhem nessa jornada por aqui…

Beijos,

Marcellus