Mito do Herói: a força de Maria em “Onde Nascem os Fortes”

Há quase um mês no ar, “Onde Nascem os Fortes” já se mostrou ser uma trama para quem tem estômago forte. A supersérie, como é classificada oficialmente pela Globo, reitera o seu título o tempo todo na narrativa de Maria, personagem de Alice Wegmann, que enfrenta os poderosos do sertão para descobrir alguma informação sobre paradeiro de seu irmão gêmeo desaparecido Nonato, interpretado por Marcos Pigossi. A jornada da protagonista não é nada fácil, em quase quatro semanas no ar, ela já passou por diversas situações tensas: escapou de uma tentativa de estupro, para se defender acabou matando um dos capangas de seu inimigo, fugiu escondida na traseira de um caminhão, refugiou-se em diversos lugares, montou um bando para ajudá-la no seu plano de vingança, levou um tiro no braço, sobreviveu e agora até roubar um caminhão foram uma das ações de Maria. Sim, o sertão é para os fortes.

Maria é filha do sertão, mesmo sendo criada no Recife, sua mãe Cássia, vivida por Patrícia Pillar, nasceu na região. Com um mistério ainda não revelado, a mãe dos gêmeos não possui boas lembranças do tempo em que vivia lá, muito por causa desse passado, sempre relutou a viagem dos filhos para o sertão. Maria não nega ser filha de Cássia, muito da coragem da menina vem de sua mãe. Devido a idade, a jovem possui uma carga de rebeldia maior, que faz com que enfrente seus inimigos de forma bem mais destemida e irresponsável.

“Onde Nascem os Fortes” é uma história de mulheres valentes que buscam quebrar as barreiras do conservadorismo, Maria e Cássia são suas principais expoentes. Em um ambiente predominantemente machista, as duas encaram de frente os poderosos homens da região, como o empresário de minério Pedro Gouveia, vivido por Alexandre Nero, o juiz Ramiro, papel de Fábio Assunção e o delegado  Plínio, interpretado por Enrique Díaz. Os três são nojentos, prepotentes, dominadores, anti-éticos, misóginos, entre outras características nada agradáveis. Acreditam que no controle do homem perante as mulheres, além disso enxergam as mulheres como meros objetos de seus desejos. O conservadorismo desses homens se chocam com o comportamento nada submisso de mãe e filha, por isso ambas causam uma estranheza nessas figuras tão antiquadas, que enxergam as duas sob olhares de raiva, ódio e até mesmo, curiosidade.

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Alice Wegmann e Patrícia Pillar em cena de “Onde Nascem os Fortes”.                                           (Foto: Divulgação/TV Globo)

Mesmo sendo uma supersérie e com uma direção bem arrojada, no fundo a história de Maria é uma dramalhão clássico, pois apresenta um dos temas mais universais de todos: a vingança. A jovem busca justiça pelo acontecido com seu irmão, portanto aniquilar seu rival, Pedro Gouveia, é essencial. Para atingir tal objetivo, Maria não mede esforços, coloca seu plano em primeiro plano, para isso abandona o grande amor – filho daquele a odeia. Para piorar seu cenário, ela sabe que seu inimigo é cúmplice da polícia local, portanto conclui que não pode contar com os meios oficiais para resolver a sua situação, portanto a sua única saída é a ilegalidade. Já que não se pode contar com a lei, passa agir contra ela. Pode-se concluir que Maria é uma anti-heroína das mais ousadas.

Conforme definido por Christopher Vogler em “A Jornada do Escritor”, o herói precisa passar por diversas adversidades para evoluir. Os oponentes de Maria são mais poderosos que ela, possuem melhores armas, são mais bem articulados e possuem respaldo financeiro e político, portanto todos os ataques feitos contra ela, são responsáveis por transformarem e deixarem ela cada vez mais resistente. O autor da jornada do herói afirma que quanto mais o protagonista sofre nas mãos dos vilões, mais pronto ele ficará para enfrentá-los em mesmo pé de igualdade. Ainda em seus primeiros 30 capítulos, Maria está em seu processo de desenvolvimento, primeiramente compreendendo sua importância como força motriz nesse jogo de poderes do sertão. O fato de ser uma pessoa de fora, “da cidade grande”, assim como ser mulher são fatores fundamentais para que ela se torne alvo de Pedro e delegado Plínio.

Para reforçar a ideia de heroína do sertão, a direção optou por fazer uma Maria sem vaidade. Antes do desaparecimento de Nonato, a protagonista já aparecia com um visual mais despojado, sem tanta maquiagem, algo bem natural. Após todo o desenrolar da personagem, ela passou a utilizar peças dos colegas de bando, camisetas, blusas e calças masculinas passaram a compor seus figurinos. As roupas são confortáveis para facilitar as ações de fuga e o calor da região. De certa forma, através de suas novas vestimentas  buscam reprimir qualquer exposição de vulnerabilidade, pois em sua nova fase, a única questão que realmente importa é a sede de justiça.

O ambiente seco e árido faz com que a personagem desenvolva uma rigidez própria. Crie uma camada dura em relação ao mundo e aos seus acontecimentos. Maria por mais impulsiva que seja em diversos momentos, pois é uma característica nata de sua personalidade, acaba por viver uma fase muito menos emotiva, mas sim extremamente racional. Um exemplo dessa priorização do pensamento é quando ela renega todo o seu relacionamento com Hermano, papel de Gabriel Leone. Por mais que se amem, ele ainda é filho de seu maior inimigo, Pedro Gouveia, por isso prefere se afastar do rapaz. É importante ressaltar ainda que a estrutura básica do folhetim romântico se encontra na narrativa de “Onde Nascem os Fortes”, porque ela também sofre por amor. Inclusive acaba se posicionando em um triângulo amoroso, pois desperta a paixão de Simplício, personagem de Lee Taylor, que faz parte de seu bando. O triângulo amoroso é outra temática atemporal dos folhetins em capítulos.

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Lee Taylor (Simplício), Alice Wegmann (Maria) e Gabriel Leone (Hermano) (foto: Divulgação/TV Globo)

Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg trazem em Maria e seu bando a imagem de um cangaço moderno e atualizado, onde a mulher é a líder. Junto com Simplício e Mudinho, personagem de Démick Lopes, vivem uma releitura do cangaço – que em sua definição tradicional segundo estudo de Maria Luiza Tapioca Silva  era um local que homens e mulheres obedeciam às normas estabelecidas e ofereciam parceria, confiança e fidelidade entre os membros. Maria, Simplício e Mudinho se uniram para proteger uns aos outros e também vingarem do poderoso Pedro Gouveia. Mesmo sendo inexperiente na região, Maria despenha papel de elo e liderança no grupo.

“Onde Nascem os Fortes” traz duas personagens femininas muito fortes, mãe e filha que buscam cada uma de sua maneira lutar pela história de Nonato. Enquanto Cássia vai atrás dos meios legais, aproveita seu tempo na busca por melhorar a vida das famílias que vivem na seca. Devido a sua própria experiência pessoal, Cássia é articulada e mais racional do que a filha, por mais que sinta o medo de perder os dois filhos a consuma por completo, consegue agir de maneira mais fria e consciente. O fato de ter criado os gêmeos sozinha faz com que ela aja como uma leoa, que busca defender seus filhos das calúnias que circulam pelo sertão. Essa força interna da personagem também reflete diretamente na personalidade valente de Maria.

Até o momento a supersérie nos mostrou uma protagonista sem medo de enfrentar as sombras de seu caminho. Ciente de sua sexualidade, inteligência e de articulação, Maria acredita que os fins justificam os meios em busca de justiça. Uma anti-heroína porreta e repleta de atitude, que não se deixa abater pelas ações de seus algozes. Talvez por isso, ela seja uma protagonista tão corajosa que faz com que o público torça por sua felicidade e consiga vencer o seco sertão dominado pelos seus figurões conservadores e totalitários.

Primeiro Capítulo: a colorida e ritmada “Segundo Sol”

Clássicas e releituras da axé music embalam ensolarado primeiro capítulo de “Segundo Sol”.

Pode esquecer a paleta de cores em tons terrosos, os figurinos com tecidos grossos, casacos pesados e chapéus da trama de Walcyr Carrasco, eles ficaram definitivamente para trás. Agora na trama de João Emanuel Carneiro entram as cores e a alegria baianas, impulsionados pelo axé music dominando as cenas de “Segundo Sol”, a novela das 21h que estreou hoje (14/05).

Como marca de suas obras, o novelista apostou em um primeiro capítulo ritmado e extremamente focado no núcleo principal. O telespectador pode compreender claramente qual era o contexto do decadente cantor de axé Beto Falcão, vivido por Emílio Dantas, naquele ano de 1999. Tanto na sua vida pessoal, como a profissional estavam indo de mal a pior. Com uma carreira declinando, Beto se vê quebrado, com dívidas causadas por seu trambiqueiro irmão Remy, papel de Vladimir Brichta, além disso, para piorar a situação, se vê abandonado pela interesseira namorada Karola, interpretada por Deborah Secco, que não aceita vê-lo ver sua carreira desmoronar.

Beto é um rapaz de bom coração, como todo bom mocinho deve ser. Influenciado pelos gananciosos Remy e Karola, ele aceita simular a própria morte, mesmo sabendo que se trata de um crime, em troca do dinheiro que será feito com o seu falso falecimento, afinal percebeu a comoção nacional causada pelo incidente. A dupla de amantes possui  uma boa sintonia em cena, os atores estão excelentes em cena e funcionam como par, com um tom que caminha entre o deboche e a piada, os vilões apresentam uma estrutura de comédia que parece combinar com enredo (pelo menos nesse primeiro capítulo). Karola já desponta com uma promessa de uma excelente vilã, devido à direção Dennis Carvalho, a personagem parece uma evolução maligna de Darlene de “Celebridade”- atualmente no “Vale a Pena Ver de Novo” que também foi dirigida pelo diretor – afinal ela é sexy, iludida com a fama, destrambelhada e carismática.

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Vladimir Brichta e Deborah Secco, respectivamente, como Remy e Karola (foto: Divulgação-TV Globo)

A segunda parte do primeiro capítulo, foca na fuga de Beto Falcão para Boiporã, quando aluga um quarto na casa de Luzia, personagem de Giovanna Antonelli. Já sob o falso nome de Miguel, passa a viver na casa da marisqueira, com o seu jeito simples e dócil, conquista o carinho dos filhos dela, mas principalmente o da própria Luzia. De forma bem dinâmica, foi mostrada toda a construção da relação de amor entre Luzia e Miguel/Beto, até o momento em que eles comunicam que irão casar. Como característica das narrativas de JEC, onde tudo acontece muito rapidamente, os vilões já armaram uma resposta ao efêmero romance dos protagonistas. Quando Remy visita o irmão na ilha, descobre do relacionamento e dos planos de casamento dele, o invejoso irmão já comunica Karola, que resolve fazer uma visita ao namorado. A personagem de Deborah Secco fala para Luzia que está grávida do cantor e que está procurando ele para dar a notícia, além disso também se apresentou como noiva dele. Entretanto a mocinha da novela tinha recém-descoberto sua gravidez. Desiludida com a situação, Luzia parece acreditar em Karola, mas o desenrolar dessa história saberemos com os próximos capítulos.

A rapidez como tudo se deu, principalmente em relação ao casal de protagonistas se deve muito a química entre os dois. Antonelli e Dantas formam um casal que passa verdade ao telespectador. Giovanna parece ter sido uma escolha acertada, de certa forma, para o papel, devido ao estilo da personagem que combina com ela e pela combinação com Emílio, porém não se pode negar que faltou sim uma atriz negra para viver o papel. A tentativa de minimizar a situação colocando Luzia à la “Gabriela Cravo e Canela”, como definido pelo crítico Maurício Stycer, soou falsa no final das contas. No caso de Emílio também foi uma decisão bastante acertada, o ator aparenta estar seguro no papel, além de ser bastante carismático e convincente quanto cantor, possui a malemolência, boa voz e presença necessárias.

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Beto e Luzia em cena (foto: Divulgação/TV Globo)

Em um outro tempo e lugar, o novelista parece recuperar o universo ficcional de “Avenida Brasil”, o café da manhã na casa dos Falcão, com direito à um belo de um barraco nos lembrou os tempos de família Tufão. Diferente da direção de Amora Mautner, onde as brigas aconteciam com todo mundo falando simultaneamente, Dennis Carvalho e Maria de Médicis privilegiaram uma direção mais clássica, deixando cada um falar no seu tempo. Se tratando da família Falcão pouco foi mostrado até o momento, Arlete Salles e José de Abreu possuem potencial de levar o núcleo Falcão longe. Fico feliz com o retorno de Arlete as novelas, realmente é uma atriz que faz falta no gênero.

Mesmo com o foco sendo basicamente em Beto, Remy, Karola e Luzia, outra personagem brilhou em sua rápida primeira aparição: Laureta, a cafetina de luxo interpretada por Adriana Esteves. Com um visual bem impactante e falas prontas para se tornarem virais, Laureta tem potencial para ir distante e repetir a dobradinha de sucesso entre Adriana e JEC. Existe um ar de mistério entre Laureta e Karola, sua ex-agenciada. É possível notar uma certa relação de domínio, uma tensão ainda não bem esclarecida, que parece ser um dos nortes de “Segundo Sol”. Falas como: “Te fiz um favor” se referindo ao fato de ter influenciado o término do relacionamento entre Beto e Karola e “Quem fez uma vez, faz de novo”, se referindo a prostituição já demonstram que ela será uma vilã objetiva, onde tempo e dinheiro andam sempre lado a lado. Em entrevistas, João Emanuel disse que a ação da vilania será revesada entre as duas, aparentemente é o que vemos já nesse primeiro capítulo, que quem fez tudo andar foi Karola, ainda Laureta está nos bastidores – por enquanto.

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Trio elétrico de Beto Falcão no Carvanal de 1999 (foto: Divulgação-TV Globo)

Além dos personagens, outro fator que chamou muita atenção nesse capítulo e ajudou na contextualização dessa Bahia do final dos anos 1990 impulsionada pelo axé music foi a trilha sonora. O capítulo já mostra imagens com os trios elétricos do Carnaval de Salvador ao som da clássica “Canto da Cidade” na voz de Daniela Mercury. Entretanto a direção não apostou apenas em versões originais da época, mas a trilha sonora da novela é composta por regravações de grandes músicas do gênero como “Me Abraça” e “Vem Meu Amor” da Banda Eva, que ganharam versões repaginadas, respectivamente adaptadas por ANAVITÓRIA e Wesley Safadão. Até uma versão em inglês foi feita, no caso a escolhida foi o hit “Swing da Cor” de Daniela Mercury que foi revisitada por Ikoko, duo italiano de música eletrônica. Quando foi noticiado sobre as novas versões, houve uma torcida de nariz de parte do público, com destaque para os mais saudosistas, mas em cena foi notado o quão importante elas foram para estabelecer o clima entre aquele período e os dias atuais. A mescla entre as originais e os covers deram um frescor, impossibilitando que a trama viesse a ficar com um aspecto datado. A escolha do repertório ajudou no reforço do universo ficcional do novelista, voltado ao popular, algo bem semelhante ao visto em “Avenida Brasil”.

Em resumo, JEC apostou em uma história de amor direta, sem muitas firulas, levando o telespectador exatamente para o centro do furacão Beto Falcão. Diferentemente de outras tramas mais complexas do autor como “A Favorita” e “A Regra do Jogo”, o novelista deixou de lado as passagens mirabolantes para focar unicamente no desenrolar, rápido e eficaz, da trajetória do cantor. A apresentação dos personagens foi inteligente, com destaque para as personalidades carismáticas de Beto, Remy e Karola, em que os atores estão excelentes em seus papéis. O primeiro capítulo deixou com uma vontade de quero-mais de Laureta. Quanto a Luzia, ainda ela está no início da trajetória da heroína, mas entre os personagens apresentados é a menos interessante, pelo menos por enquanto. Vamos aguardar o desenrolar dessa trama que parece resgatar mais uma vez o bom e velho novelão.

O Outro Lado de Sophia?

A personagem de Marieta Severo manipulou, mentiu e matou diversos personagens, mas a fica a dúvida se ela entrou para o hall das grandes vilãs da teledramaturgia nacional.

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Sophia (Marieta Severo) em seu julgamento nos último capítulos de “O Outro Lado do Paraíso” (foto: reprodução)

Desde as primeiras chamadas de “O Outro Lado do Paraíso”, foi mostrado ao público que a vilã de Marieta Severo, Sophia, não estaria para brincadeira. Junto de sua filha, Lívia, interpretada por Grazi Massafera, seriam as grandes vilãs responsáveis por transformar a vida da protagonista Clara, personagem de Bianca Bin, em um verdadeiro inferno. Sophia manteve a personalidade má e cruel durante toda trama, diferente de sua filha (não-filha), que amoleceu o coração após se apaixonar pelo garimpeiro, Mariano (Juliano Cazarré). Walcyr Carrasco garantiu o chapéu de vilã para Sophia e não tirou dela em momento algum.

Na história da teledramaturgia nacional, muitas vilãs eram mães e seus filhos eram responsáveis por demonstrar suas vulnerabilidades, vide casos de Nazaré Tedesco em “Senhora do Destino” e Perpétua em “Tieta”, entre outros. Entretanto Sophia não era uma delas, seus filhos e até mesmo o neto nunca passaram de meros instrumentos para seus planos de arrancar as minas de Clara e destruir todos aqueles que eram seus inimigos. Nos primeiros capítulos, ela já envenenava a cabeça do desequilibrado Gael, papel de Sérgio Guizé, que acabava bebendo demais e batendo na até então esposa, Clara. Lívia foi uma aliada apenas no começo da trama, principalmente com o roubo de Tomás, filho de Clara e Gael, que foi criado por ela como seu. A personagem de Grazi Massafera ajudou a mãe no plano de colocar Clara no manicômio, mas depois acabou virando presa fácil de Sophia, afinal era a megera que tinha a guarda oficial do menino Tomás. Por último, a renegada Estela, papel de Juliana Caldas, a filha anã de Sophia era odiada pela mãe devido a sua condição. Sem nenhuma melhora no relacionamento entre as duas, durante toda a trama, Sophia caçoou, xingou, brigou com a filha em diversos momentos, demonstrando nenhum tipo de carinho.

A falta de afeto da mãe para os filhos foi crucial para que o público visse a personagem como uma vilã de fato, típica de desenhos animados. A família da personagem representava apenas um meio para obtenção de seus objetivos, não só por cada um desempenhar uma função estratégica em suas artimanhas, como também formavam um clã apresentável para a sociedade de Palmas. A exclusão da filha anã era proposital, afinal ela na cabeça da mãe e da preconceituosa alta sociedade local, Estela sujava o glamour que os Montserrat representavam.

 

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Lívia (Grazi Massafera), Sophia (Marieta Severo), Gael (Sérgio Guizé, Estela (Juliana Caldas) – centro. (Foto: divulgação/TV Globo)

 

Muito de sua personalidade combinada com o passado sofrido, Sophia sabia se colocar em uma posição de liderança, principalmente perante aos homens. Ela disputava poder com eles de igual para igual, muitas vezes, em um lugar superior ao deles. Em Palmas, Sophia comandava uma verdadeira quadrilha que favorecia suas falcatruas, tinha em suas mãos o juiz Gustavo (Luís Melo), o delegado Vinicius (Flávio Tolezani) e o psiquiatra Samuel (Eriberto Leão). Todos de alguma forma estavam presos nas mãos dela, que sabia chantageá-los muito bem para não precisar pagar pelos seus atos ilícitos. A megera não jogava de frente apenas com os grandes figurões, devido ao seu passado na prostituição, aprendeu a como lidar com os mais diferentes tipos, facilitando assim a sua forma de administrar tão bem o garimpo, durante uma boa parte da narrativa. Sophia passava muito tempo com seus garimpeiros, chegava inclusive a beber e jogar cartas com eles. Ela não só se divertia, como também adorava dar o golpe neles, para que pudesse mantê-los ainda mais próximos à ela, sem nenhuma tentativa de escapatória. Sophia fazia jus a ao ditado “o gado só engorda aos olhos de seu dono”, portanto vivia em Pedra Santa de olho em suas esmeraldas. Seus atos eram boa parte premeditados, por isso sempre estava perto das minas para não ser roubada pelos seus funcionários. Com muito jogo de cintura e firmeza, ela conseguiu impor respeito na mina e quem trabalhava nela. Mesmo em um ambiente extremamente machista, Sophia contornou a situação ao seu favor, fazendo com que ela se tornasse cada vez mais poderosa e temida. Marieta Severo soube imprimir esse tom irônico e sarcástico na personagem de maneira brilhante, sem que isso soasse falso, mas sim reforçando o status da vilã.

A antagonista de “O Outro Lado do Paraíso” não apresentava fraquezas ou traços de humanidade em seu caráter. A durona Sophia permaneceu assim durante toda a trama, até mesmo em seu julgamento final com o rosto paralisado por um AVC, não teve sua resistente carcaça desmoronada (apenas com o veredito final, que mostrou mais uma vez o seu descontrole). Se com a família e o trabalho, ela não demonstrava nenhum sentimento, um dos poucos momentos que foi registrado essa fragilidade foi durante o seu relacionamento com o chefe do garimpo, Mariano. As idas e vindas do casal foram responsáveis por diversos atritos e até questionamentos internos de Sophia, muitas vezes relacionado a sua beleza e idade, afinal era bem mais velha que seu amante. Entretanto viu seu mundo desmoronar quando descobriu que Mariano não tinha mais interesse nela, mas sim em sua filha Lívia. A derrocada de Sophia começa a partir deste momento, afinal ela se deixa levar por um amor o qual não é correspondida. Com o namoro entre Lívia e Mariano, Sophia rompe relações com a falsa filha, que acaba se virando contra a mãe.

A novela de Walcyr Carrasco foi construída de forma bem maniqueísta, em boa parte do tempo. A vingança da protagonista Clara, mesmo com algumas cargas de anti-heroísmo devido aos seus planos mirabolantes, não fizeram com que a personagem se perdesse em sua própria sede de fazer justiça com as próprias mãos, como o ocorreu com Nina, a personagem de Débora Falabella em “Avenida Brasil”. Clara foi boa em toda a novela, sofrendo em um quarteto amoroso, disputando judicialmente a guarda do filho e o carinho dele, entre outras coisas, a personagem sofreu sofreu sofreu como uma mocinha clássica do folhetim. Já Sophia foi uma vilã digna de desenho animado. Maldosa em todos os momentos, a personagem só pensava em esmeraldas e destruir a vida de Clara, qualquer outra ideia passava longe ou era pouco explorada pela mente doentia dela. Com uma tesoura na mão foi capaz de executar diversas pessoas (combinamos que nenhum deles de grande importância para o rumo da trama, exceto Mariano – que milagrosamente sobreviveu), em uma espécie de revival de Lívia Marine – a vilã da agulha vivida por Claudia Raia em “Salve Jorge”. Nesses assassinatos impulsivos, Sophia revelou que não aguentava mais a pressão na qual estava submetida. Se em um passado não tão distante, vimos vilões que causaram comoção no público por suas atitudes ambíguas de amor e ódio, como Carminha e Félix, Sophia só estimulou no público um sentimento: raiva. Portanto atingiu perfeitamente seu objetivo, afinal ninguém em hipótese alguma gostaria que a algoz de Clara se desse bem no final ou passasse por uma redenção.

Se em demais tramas, acompanhamos vilões com que pudéssemos criar algum tipo de identificação, com Sophia foi exatamente o oposto, desenvolvemos repulsa. Atingiu exatamente aquilo proposto pelo novelista. Em seu julgamento final, Sophia é diagnosticada como psicopata, infelizmente, uma conclusão rasa pelo o que a personagem representou, longe de apresentar uma psicopatia nos moldes de Flora, papel de Patrícia Pillar em “A Favorita”. A personagem de Marieta Severo foi desenvolvida pela forma mais clássica do folhetim, como um verdadeiro dramalhão, o autor determinou os bons e os ruins, separou o joio do trigo, com isso a vilã foi má o tempo, sem respiros. Em entrevista ao site GShow, Walcyr Carrasco confirmou que a novela retomou uma estrutura antiga, de um típico melodrama. Os mocinhos são bons até o final, enquanto os vilões são completamente mals e pagam pelos seus atos no final.

Se Sophia será lembrada no futuro como uma das grandes vilãs da teledramaturgia, apenas o tempo dirá. O que se pode concluir por enquanto é a importância do vilão no desenvolvimento do herói e como que ainda assim o melodrama clássico ainda tem espaço, e principalmente, força com o público brasileiro.

Você gostou da Sophia? Do final de “O Outro Lado do Paraíso”? Comente aqui!

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Marieta Severo como Sophia (foto: divulgação/TV Globo)

Primeiro Capítulo

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Mercedes (Fernanda Montenegro) deixa sua mensagem em “O Outro Lado do Paraíso” (foto: reprodução)

Depois de muito tempo sem poder acompanhar decentemente uma novela devido aos quatros anos de faculdade, finalmente consegui retomar o hábito de assistir a uma história diária (ok, que de forma bem diferente com as facilidades do on demand), mas assisti “O Outro Lado do Paraíso”. No começo, me pegou de jeito, acho que estava com saudades do “ver telenovela”, depois em alguns momentos dei uma abandonada, nem se quer acompanhava no GloboPlay, exceto grandes momentos, como os intermináveis julgamentos. Quando assisti o capítulo final, pelo aplicativo, pois não pude ver na hora, me reascendeu a vontade de escrever sobre novela.

 

Em 2017, fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre vilãs de telenovela. Um estudo que me deu a honra de poder assistir “Vale Tudo”, “Tieta”, “A Indomada”, poder rever diversas tramas que fizeram parte da minha infância, como “Celebridade” e “Páginas da Vida”. Reassisti boa parte dos capítulos com gosto, com vontade de quero mais, pude aproveitar meus raros momentos de lazer vendo “Por Amor” no Canal Viva. E sempre com aquela vontade de comentar os capítulos, maratonar no sofá de casa nos dias livres ou nos meus horários de almoço. Na época tinha meu orientador para conversar e se debruçar sobre as tramas, agora em 2018, me deu um vazio, comentar no Twitter e com os amigos (os poucos que assistem) já não me bastava mais. Me sentia incompleto.

Com o final da história de vingança de Clara contra Sophia, fiquei “fritando” muito os pensamentos sobre a qual razão eu não me apeguei a personagem de Marieta Severo, me questionei se o público gostava da trama e por que eles acompanhavam o novelão, no sentido mais clássico da palavra. Depois de muito tempo matutando, pensei “Vou fazer um blog!”, pensei em fazer um canal no YouTube também (esse ainda preciso pensar mais um pouquinho).

Para quem gosta de telenovela, pode ser um prato cheio. Quero comentar, ouvir dos amantes do gênero o que acham, o que esperam, suas angústias e suas alegrias. Adianto aqui que meu foco serão as novelas das 21h e 23h, assim como algumas reprises do Viva (estou animadíssimo em reassistir “Vale Tudo”). Para quem for de São Paulo, podem me convidar para assistir a novela na casa de vocês ou tomar um café para debater e relembrar outros títulos. Manter a história viva do folhetim eletrônico é sim refletir muito também sobre nossa sociedade.

Vou me dedicar mais ao assunto e tentar aprender mais!

Tentarei trazer novidades sempre que possível.

Espero que me acompanhem nessa jornada por aqui…

Beijos,

Marcellus