Ação e debate sobre honestidade definem os caminhos de “Segundo Sol”

Durante as entrevistas de lançamento de “Segundo Sol”, João Emanuel Carneiro afirmou que a sua nova trama estaria mais próxima de suas obras anteriores “Da Cor do Pecado” (2004) e “Avenida Brasil” (2012). Com essa primeira fase que acabou na última quarta-feira (23/05), o novelista realmente pôde comprovar seu ponto, os nove capítulos da primeira fase da história foram movidos por muita ação, em nenhum momento o telespectador ficou entediado com a loucura que se tornou a vida de Beto Falcão e Luzia graças aos planos nada simpáticos de Karola, Laureta e Remy.

Assim como suas outras novelas, as protagonistas penaram e muito nas mãos de seus algozes. A Preta de “Da Cor do Pecado”, vivida por Taís Araújo, foi vítima direta do ódio de Bárbara – aqui interpretada, pela hoje mocinha, Giovanna Antonelli, assim como Rita/Nina, a personagem de Débora Falabella, em “Avenida Brasil”, que foi jogada no lixão por sua ex-madrasta Carminha, de Adriana Esteves. Já em “Segundo Sol”, o autor repete a sua fórmula de novelão com pitadas de seriado, colocando em todos os finais dos capítulos algum bom gancho que faz com que você queira assistir na noite seguinte. Nesse meio tempo, Luzia se apaixonou por Miguel, quase fugiu com ele, foi enganada, matou acidentalmente o ex-marido, perdeu os filhos, teve uma gestação escondida, foi julgada, presa e até fugiu do país para a Islândia. O prólogo triunfou as vilanias e colocou em maus lençóis a protagonista.

JEC escolheu saídas narrativas clássicas do folhetim como: triângulos amorosos, falsa gravidez, mentiras e amantes. Mesmo se utilizando de recursos já velhos conhecidos do público que acompanha o gênero, o autor não deixou de incluir características das séries, algo muito presente em suas obras. Tudo se resolve rapidamente e a narrativa tem muito ritmo, nenhuma questão leva muitos capítulos para ser resolvido. Isso se deve também as muitas passagens de tempo desse primeiro momento, responsáveis por darem ainda mais agilidade a trama, fazendo com que o telespectador (principalmente o do Twitter) questionasse se o autor fosse capaz de manter esses inúmeros ganchos ao longo dos capítulos restantes. Outra marca registrada do novelista é focar em um primeiro momento apenas no núcleo principal, portanto só nos foi apresentado o drama de Luzia e Beto, assim como a família Athayde. Esses dois são fundamentais para o desenvolvimento da narrativa, afinal é com eles que se encontram os filhos da protagonista, Manu e Ícaro.

edit-luzia
Luzia, agora Ariella e Groa (foto: reprodução/TV Globo)

O capítulo inicial da segunda fase reforça ainda mais esse ritmo. Sendo bem direto, o autor traz as angústias e o contexto de Manu e Ícaro após dezenove anos. Agora os irmãos interpretados por Luisa Arraes e Chay Suede demonstram suas insatisfações com o rumo de suas vidas, sem mostrar cenas de infância e adolescência, JEC preferiu explicar tudo diretamente em diálogos, em cenas do cotidiano. Manu mostra sua relação problemática com a família Athayde, principalmente a relação conturbada com a irmã Rochelle, interpretada por Giovanna Lancelotti. Além de não ter o sentimento de pertencimento por aqueles que a adotaram, Manu não demonstra nenhuma conexão com rico estilo de vida de sua família adotiva. Já por meio de um comportamento de bad boy, Ícaro apresenta uma relação nada amigável com a tia Cacau, vivida por Fabíula Nascimento, as falas fortes demonstram que o rapaz tem rancor da tia por ter separado os irmãos. Tanto Manu, quanto Ícaro são personagens bem densos, que podem ter suas camadas psicológicas aprofundadas com o passar dos capítulos, o passado dos dois marcado pela ausência da mãe e as educações tão distintas que receberam serão responsáveis por boas cenas com eles.

icaro-chay-suede-e-manuela-luiza-arraes-de-segundo-sol
Chay Suede e Luisa Arraes como Ícaro e Manu (foto: reprodução/TV Globo)

 

O novelista também não tomou muito tempo para contar a ascensão meteórica de Luzia como Ariella, poucas explicações foram feitas e para o momento foram suficientes para fazer com que ela retorne para Salvador à procura de seus filhos. Luzia/Ariella se apresentou na Islândia, voltou para o Brasil, tomou banho de mar, encontrou Cacau em uma das cenas mais intensas do capítulo e ainda tocou em uma festa. Tudo rápido, direto, como se estivesse tirando um curativo, João Emanuel foi prático sem muitas firulas. Até mesmo as vilãs passaram pela mesma lógica, Laureta cada vez mais poderosa como cafetina foi mostrada como ela ainda mantem o mesmo esquema de aliciamento para a prostituição, enquanto isso Karola é mostrada como uma mãe devotada ao filho Valentim, interpretado pelo ator Danilo Mesquita, e a viúva dedicada.

Além de todos esses acontecimentos intensos, o novelista determinou, principalmente, o tema da trama através do personagem de Beto. Foram exibidas duas cenas fundamentais para escancarar um dos questionamentos essenciais de “Segundo Sol”, que é o debate sobre honestidade e caráter. A primeira delas é com seu filho Valentim, que não sabe que Miguel é na verdade Beto, seu pai amado e adorado, por isso acaba discutindo com ele, chamando-o de oportunista, por passar os dias bebendo cerveja e fazendo compras, se aproveitando do dinheiro dos direitos autorais do “falecido” cantor de axé. Essa relação conturbada entre pai e filho, disfarçada de padastro e enteado mexem com Beto, que parece viver em um modo automático. Essa comodidade é debate entre outra conversa de pai e filho, mas desta vez, entre Beto e Seu Nonô, papel de José de Abreu, que não aceita a condição de mentira que a família acatou em função do dinheiro.

Nessas duas cenas, JEC abre uma discussão sobre o limite da honestidade, mas que não paira apenas na família Falcão. Muito pelo contrário, todos os personagens apresentam alguma outra face não tão boa, isso também se reflete muito na família Athayde, em todos os seus membros, que se aproveitaram da situação de Luzia para arrancar Manu e garantir a felicidade deles próprios, sem se preocupar com o futuro da mãe dos meninos ou mesmo com o outro irmão da garota. Os personagens trazidos por JEC são muito humanos e por isso muito carismáticos, você compreende o debate interno levantado por eles, portanto esqueça os chapados personagens de “O Outro Lado do Paraíso”, extremamente maniqueístas, aqui o autor trás seres ficcionais repletos de contrastes, ninguém é completamente bom ou mal, eles são humanos. Toda a narrativa está repleta de anti-heróis, começando por próprio Beto que aceita o fato de sua falsa morte confortavelmente, afinal entra dinheiro e muito, que faz com que ele se cale. Por mais que tenha tido influência de Karola e Remy, a decisão final ainda continuou sendo do próprio cantor e ele é o principal responsável por toda as suas escolhas no final das contas. Além dele, temos Roberval, interpretado por Fabrício Boliveira, que vai em busca de uma nova vida, mas acaba escolhendo um caminho não tão honesto, assim como Karola, Remy e até mesmo Luzia. Todos possuem alguma falha.

No ano de aniversário de 30 anos de “Vale Tudo”, “Segundo Sol” vem repetir a discussão da novela de Gilberto Braga e Aguinaldo Silva,  de certa forma utiliza da máxima de “É possível ser honesto em um país de desonestos?” para poder contar a sua história. Afinal ninguém ali se escapa de alguma falha de caráter, o pobre não é imaculado e livre de erros, assim como o rico não é apenas o grande vilão, ambos apresentam deslizes e acertos. A discussão levantada pela atual novela, não chega a ser tão escancarada quanto a trama de Maria de Fátima e Raquel, mas ainda assim toca nas mesmas feridas de três décadas atrás, mostrando que esse assunto sempre é atual na sociedade brasileira. Torcer para que essa discussão não acabe por aqui, mas ainda sirva de pano de fundo para os muitos arcos de “Segundo Sol”.