Primeiro Capítulo: A sempre atual “Vale Tudo”

Dizer que “Vale Tudo” é uma das maiores novelas da nossa teledramaturgia é cair no senso comum. É clichê. Não existe nenhuma novidade quanto a isso, afinal passaram-se 30 anos da estreia em 1988 e ela continua fiel e atualizada em sua promessa. Por incrível que pareça, ela não envelheceu da mesma forma como outras colegas de mesma década, possui ainda um frescor. É bem difícil escrever esse texto, afinal essa é uma das minhas novelas prediletas, assisti pelo box da Globo Marcas em DVD e ver agora na íntegra é de se empolgar novamente, pois ver a história completa são outros quinhentos. Ontem, o canal Viva deu o pontapé inicial com a re-reprise da novela escrita pelo trio gabaritadíssimo: Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Basséres. Depois de ter sido exibida na estreia da emissora em 2010, hoje, “Vale Tudo” reinicia com fãs ainda mais animados com esse comeback comemorativo dos 30 anos.

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Raquel e Dona Mildred em passeio turístico  (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

O primeiro capítulo é instigante, mordaz e direto. Tudo acontece. Se hoje estamos acostumados com as dinâmicas narrativas de João Emanuel Carneiro e Walcyr Carrasco repletas de reviravoltas logo no primeiro episódio, muito se deve a herança deixada por “Vale Tudo”.  Logo de cara conhecemos a índole de todos os personagens, a briga inicial, com direito a agressão, entre Raquel, a estridente personagem de Regina Duarte, e Rubinho, papel de Daniel Filho, já marcam o que virá pela frente. A cena é forte, pois já encontramos aqui dois pólos opostos: o marido mau-caráter e a esposa honesta, que suplica ajuda dele para resolver os problemas domésticos. O embate entre os dois é visto pela filha do casal, Maria de Fátima, que apenas observa a família se ruir. Quando Raquel saí da casa do marido e vai morar com o pai em Foz do Iguaçu junto da filha, ocorre uma troca nos pólos, Rubinho deixa de ser o antagonista de sua vida para a própria filha assumir esse lugar.

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Maria de Fátima dando golpe no taxista em “Vale Tudo”  (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

 

O texto é ousado, pois coloca mãe e filha em busca de objetivos antagônicos, isso sem rodeios, logo de cara para o telespectador. Raquel não enxerga a verdadeira essência da filha até o momento que leva o golpe dela, mesmo assim custando acreditar que a menina poderia vender a casa que moravam sem seu consentimento. O debate proposto pelos novelistas de “É possível ser honesto em um país de desonestos?” nasce na casa de Raquel, onde ela e Fátima vivem em constante discussão sobre princípios e valores. Os diálogos são ferozes, principalmente partindo de Fátima, vide a conversa entre ela e o avô sobre corrupção. A personagem naturaliza o que é errado, pois segundo seu ponto de vista, em um país onde todos agem dessa forma, isso deixa de ser algo incorreto, mas sim é o modo operante de seu povo. O embate entre ela e o avô é duro de se ouvir, pois ele ainda continua extremamente contemporâneo, afinal diversos pontos tocados por Salvador, papel de Sebastião Vasconcelos, ainda estão longe de se concretizar, reafirmando que muitas coisas ainda não mudaram após esses trinta anos.

A discussão levantada pelos autores é levada ao extremo é reforçada o tempo todo neste primeiro capítulo, em um tom quase de piada, no melhor estilo “o feitiço contra o feiticeiro”, Maria de Fátima leva um golpe do taxista que cobra uma fortuna por uma curta corrida, vendo que está sendo passada para trás, ela resolve aplicar uma para cima do motorista. A jovem prolonga a corrida, fazendo diversas paradas até que em uma delas, não retorna mais ao carro e o deixa com uma caixa de presente, onde dentro tinha uma banana. O gesto da banana é tão potente, que os autores repetem ela no último capítulo com a fuga de Marco Aurélio, do Brasil, fazendo um banana para o Rio de Janeiro. Gilberto Braga e seu time já revelam que aqui: o golpista tem vez e ainda por cima tem que tomar cuidado com os outros, pois a rasteira pode vir de seu semelhante.

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A banana de “Vale Tudo” (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

“Vale Tudo” não é uma trama esteticamente bonita, produzida antes da revolução de fotografia de “Pantanal” da TV Manchete (1990), ainda seus cenários são muito escuros e repletos de sombras, mas nada disso tira o seu brilho que está exatamente no mais importante: o texto. É imprescindível reiterar isso, mas são os diálogos os responsáveis por tornar essa novela tão presente na memória afetiva do público, pois eles ainda funcionam e muito. Tomamos como exemplo a cena que Fátima incentiva a mãe a sair com o homem mais velho, rico e até mesmo casado, inclusive a chama em um tom nitidamente debochado de “até que você é bonitinha”. A filha menospreza a mãe sem pudor algum, achando inclusive que está fazendo um elogio. Importante dizer que a novela não vive só do texto, mas sua montagem tem tiradas para lá de eficientes e repletas de críticas, a que mais chama atenção nesse primeiro capítulo é quando Raquel está discursando sobre a honestidade do povo trabalhador brasileiro, mas que em seguida corta para a cena da personagem Aldeíde, de Lília Cabral, roubando papel higiênico e sabonete do banheiro da empresa onde trabalha, pois sabe que o salário não vai render o mês todo. Portanto a tese dos criadores é: ninguém está ileso de ser desonesto neste país.

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Aldeíde roubando o papel higiênico da empresa (foto: Canal Viva/TV Globo/Reprodução)

Mesmo ainda escrita em um final de censura, “Vale Tudo” é transgressora e toca em diversas feridas ainda abertas do comportamento brasileiro. Aqui não existe a intenção de passar a mão em nenhuma classe social, todos são responsáveis pelo país que vivemos e é essa é tese defendida pelos autores. Essa é uma das características que faz com que ela ainda seja tão atual, pois o Brasil de 2018 ainda é o mesmo de 1988 em diversos aspectos. Neste primeiro capítulo, vimos diálogos duros, mas foi possível rir e chorar de nossa própria desgraça, até mesmo beber um gin tônica com Maria de Fátima (e a gente achando que tinha sido a Beth de “O Outro Lado do Paraíso” a precursora do hábito). Mas quanto a obra do gênero novela, temos um folhetim com um grande texto, excelentes interpretações e ritmo que não deve a nenhuma outra da era dos seriados.