Enfrentamento do machismo e homofobia familiar foram os condutores da narrativa de “Onde Nascem os Fortes”

Depois de 53 capítulos de “Onde Nascem Os Fortes”, finalmente foi revelado o responsável pela morte de Nonato, o personagem de Marcos Pigossi. O assassinato do irmão gêmeo de Maria, vivida brilhantemente por Alice Wegmann, foi a força propulsora para todos os acontecimentos da trama, muito além disso, o crime impulsionou o desenvolvimento das narrativas de personagens femininas extremamente fortes, como a própria Maria e de sua mãe Cássia, papel de Patrícia Pillar, que enfrentaram o machismo de um lugar árido e tomado pela violência. A falta de respostas vinda de uma polícia completamente corrupta e ineficaz fizeram com que mãe e filha partissem para ação, cada uma com as suas próprias armas.

Como o próprio nome da série diz, o sertão é um lugar onde nascem aqueles que são mais resistentes. O ambiente seco, dominado pelos poderosos homens da lei e das terras mandam mais, afinal é com eles que estão o dinheiro, as armas, os capangas. Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg souberam conduzir isso perfeitamente, mostraram tão cruamente ao telespectador como funciona a manutenção do sistema autoritário em um lugar tão pobre, onde os jogos de interesses financeiro e político prevalecem em detrimento de qualquer lei. Por meio dos personagens rivais interpretados por Alexandre Nero e Fábio Assunção, respectivamente, Pedro Gouveia e Ramiro, essa luta de interesses foi demonstrada, em boa parte da narrativa. Ambos tiveram condutas condenáveis, entretanto as camadas humanas do personagem de Nero foram se sobressaindo, muito pela carinhosa figura paterna que tinha, enquanto o juiz de Sertão só revelava cada vez mais seu pensamento autoritário e conservador.

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Maria e Cássia, mãe e filha, em “Onde Nascem os Fortes” (foto: divulgação/TV Globo)

Cássia e Maria são filhas do sertão, ambas enfrentam esses homens da forma como acham mais conveniente para vencer a guerra pela ausência de respostas. A mãe dos gêmeos foca na experiência e na articulação, enquanto a filha pela própria imaturidade da vida age de forma mais impulsiva. O jeito como cada uma escolheu entrar no jogo é legítima. Afinal as duas precisam encarar o mesmo fator em comum: o machismo. No conservador sertão, mulheres como elas não são bem-vindas, muito menos bem acolhidas, inclusive elas fazem um contraponto com Rosinete, esposa de Pedro vivida por Débora Bloch. Mesmo sabendo da traição do marido, a mãe de Hermano e Aurora era a mulher dedicada a família e a um casamento falido, que vivia apenas para isso e esquecia de si mesma. Com o passar dos capítulos, Rosinete passa a se conscientizar dessa sua situação e toma novamente as rédeas de sua vida. Essa transformação fica bem clara em conversa com o seu filho, onde ela afirma ainda ser uma mulher e que possui suas vontades, mesmo depois de muito tempo negando-as. É impossível negar a influência de Cássia e Maria nas mulheres do seu em torno, mesmo que indiretamente.

A postura arrojada de Cássia foi o que atraiu Ramiro. O juiz da cidade ficou encantado pela personalidade marcante e destemida dela, aproveitando deste trunfo, ela passa a se relacionar com ele, pois através do relacionamento sabia que conseguiria vantagens, como acessar com mais facilidade o processo do assassinato do filho, como o julgamento de Maria. Entretanto esse local é perigoso, afinal Ramiro é uma alegoria do machismo, não só por possuir o poder da força bruta, política e da bala, mas pelo seu jeito irredutível e controlador, de um típico macho alfa. O caso entre os dois é abusivo, ele controlava os seus passos, as suas atitudes e a cercava de todos os modos, até por isso a empregou dentro do forúm.

O comportamento machista dele não se resume apenas com Cássia, mas principalmente com seu filho, Ramirinho, interpretado bravamente por Jesuíta Barbosa. O filho é mais um contraponto na trama, afinal ele é o completo oposto do pai, homossexual e drag queen. Motivo de vergonha do pai, que não o aceita, com isso a relação dos dois é frágil, pois Ramiro impõe que o menino seja “macho” e “forte”. Já Ramirinho sofre, órfão de mãe, deposita no pai a esperança de aceitação e amor, entretanto o único sentimento presente na relação é medo. Foram diversas as cenas que debateram o tema da homofobia no âmbito familiar, mas foi como Shakira do Sertão que Ramirinho pode enfrentar o seu pai e se mostrar como é. Deixo como referência, a belíssima passagem em que ele canta montado na frente do fórum da cidade, assim deixando claro o seu posicionamento perante a sua própria vida.

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Ramiro e filho em “Onde Nascem os Fortes” (foto: divulgação/TV Globo)

Em uma jogada de mestre, os escritores conseguiram fazer mais uma associação de entre a história principal e o drama de Ramirinho. Em mais um contraponto, o mulherengo Nonato foi vítima de homofobia. Em diversos capítulos, Maria reforçava a imagem de galanteador do irmão, isso já era de certa forma uma deixa para o que viria acontecer. Nonato foi morto por estar na hora e momento errados, mas além disso, vítima da não aceitação de Ramiro que forçou seu filho a matar aquele rapaz inocente. Os autores deixaram claro: homofobia mata sem ver a quem e as suas consequências são incontáveis.

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Ramirinho em cena do último capítulo de “Onde Nascem os Fortes”. (foto: divulgação/TV Globo)

Poderia passar aqui horas e horas fazendo análise dos diversos perfis, todos muito ricos e repletos de contradições. Como poucas vezes visto, “Onde Nascem os Fortes” trouxe personagens repletos de camadas, onde todas as suas atitudes eram justificadas, mesmo as mais cruéis. A direção impecável e sensível de José Luiz Villamarim, associada ao texto sútil de Moura e Goldenberg com um elenco afiado fizeram com o telespectador voltasse o seu olhar as questões mais humanas, como aceitação, maternidade, envelhecimento, traição, religião e poder.

Mito do Herói: a força de Maria em “Onde Nascem os Fortes”

Há quase um mês no ar, “Onde Nascem os Fortes” já se mostrou ser uma trama para quem tem estômago forte. A supersérie, como é classificada oficialmente pela Globo, reitera o seu título o tempo todo na narrativa de Maria, personagem de Alice Wegmann, que enfrenta os poderosos do sertão para descobrir alguma informação sobre paradeiro de seu irmão gêmeo desaparecido Nonato, interpretado por Marcos Pigossi. A jornada da protagonista não é nada fácil, em quase quatro semanas no ar, ela já passou por diversas situações tensas: escapou de uma tentativa de estupro, para se defender acabou matando um dos capangas de seu inimigo, fugiu escondida na traseira de um caminhão, refugiou-se em diversos lugares, montou um bando para ajudá-la no seu plano de vingança, levou um tiro no braço, sobreviveu e agora até roubar um caminhão foram uma das ações de Maria. Sim, o sertão é para os fortes.

Maria é filha do sertão, mesmo sendo criada no Recife, sua mãe Cássia, vivida por Patrícia Pillar, nasceu na região. Com um mistério ainda não revelado, a mãe dos gêmeos não possui boas lembranças do tempo em que vivia lá, muito por causa desse passado, sempre relutou a viagem dos filhos para o sertão. Maria não nega ser filha de Cássia, muito da coragem da menina vem de sua mãe. Devido a idade, a jovem possui uma carga de rebeldia maior, que faz com que enfrente seus inimigos de forma bem mais destemida e irresponsável.

“Onde Nascem os Fortes” é uma história de mulheres valentes que buscam quebrar as barreiras do conservadorismo, Maria e Cássia são suas principais expoentes. Em um ambiente predominantemente machista, as duas encaram de frente os poderosos homens da região, como o empresário de minério Pedro Gouveia, vivido por Alexandre Nero, o juiz Ramiro, papel de Fábio Assunção e o delegado  Plínio, interpretado por Enrique Díaz. Os três são nojentos, prepotentes, dominadores, anti-éticos, misóginos, entre outras características nada agradáveis. Acreditam que no controle do homem perante as mulheres, além disso enxergam as mulheres como meros objetos de seus desejos. O conservadorismo desses homens se chocam com o comportamento nada submisso de mãe e filha, por isso ambas causam uma estranheza nessas figuras tão antiquadas, que enxergam as duas sob olhares de raiva, ódio e até mesmo, curiosidade.

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Alice Wegmann e Patrícia Pillar em cena de “Onde Nascem os Fortes”.                                           (Foto: Divulgação/TV Globo)

Mesmo sendo uma supersérie e com uma direção bem arrojada, no fundo a história de Maria é uma dramalhão clássico, pois apresenta um dos temas mais universais de todos: a vingança. A jovem busca justiça pelo acontecido com seu irmão, portanto aniquilar seu rival, Pedro Gouveia, é essencial. Para atingir tal objetivo, Maria não mede esforços, coloca seu plano em primeiro plano, para isso abandona o grande amor – filho daquele a odeia. Para piorar seu cenário, ela sabe que seu inimigo é cúmplice da polícia local, portanto conclui que não pode contar com os meios oficiais para resolver a sua situação, portanto a sua única saída é a ilegalidade. Já que não se pode contar com a lei, passa agir contra ela. Pode-se concluir que Maria é uma anti-heroína das mais ousadas.

Conforme definido por Christopher Vogler em “A Jornada do Escritor”, o herói precisa passar por diversas adversidades para evoluir. Os oponentes de Maria são mais poderosos que ela, possuem melhores armas, são mais bem articulados e possuem respaldo financeiro e político, portanto todos os ataques feitos contra ela, são responsáveis por transformarem e deixarem ela cada vez mais resistente. O autor da jornada do herói afirma que quanto mais o protagonista sofre nas mãos dos vilões, mais pronto ele ficará para enfrentá-los em mesmo pé de igualdade. Ainda em seus primeiros 30 capítulos, Maria está em seu processo de desenvolvimento, primeiramente compreendendo sua importância como força motriz nesse jogo de poderes do sertão. O fato de ser uma pessoa de fora, “da cidade grande”, assim como ser mulher são fatores fundamentais para que ela se torne alvo de Pedro e delegado Plínio.

Para reforçar a ideia de heroína do sertão, a direção optou por fazer uma Maria sem vaidade. Antes do desaparecimento de Nonato, a protagonista já aparecia com um visual mais despojado, sem tanta maquiagem, algo bem natural. Após todo o desenrolar da personagem, ela passou a utilizar peças dos colegas de bando, camisetas, blusas e calças masculinas passaram a compor seus figurinos. As roupas são confortáveis para facilitar as ações de fuga e o calor da região. De certa forma, através de suas novas vestimentas  buscam reprimir qualquer exposição de vulnerabilidade, pois em sua nova fase, a única questão que realmente importa é a sede de justiça.

O ambiente seco e árido faz com que a personagem desenvolva uma rigidez própria. Crie uma camada dura em relação ao mundo e aos seus acontecimentos. Maria por mais impulsiva que seja em diversos momentos, pois é uma característica nata de sua personalidade, acaba por viver uma fase muito menos emotiva, mas sim extremamente racional. Um exemplo dessa priorização do pensamento é quando ela renega todo o seu relacionamento com Hermano, papel de Gabriel Leone. Por mais que se amem, ele ainda é filho de seu maior inimigo, Pedro Gouveia, por isso prefere se afastar do rapaz. É importante ressaltar ainda que a estrutura básica do folhetim romântico se encontra na narrativa de “Onde Nascem os Fortes”, porque ela também sofre por amor. Inclusive acaba se posicionando em um triângulo amoroso, pois desperta a paixão de Simplício, personagem de Lee Taylor, que faz parte de seu bando. O triângulo amoroso é outra temática atemporal dos folhetins em capítulos.

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Lee Taylor (Simplício), Alice Wegmann (Maria) e Gabriel Leone (Hermano) (foto: Divulgação/TV Globo)

Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg trazem em Maria e seu bando a imagem de um cangaço moderno e atualizado, onde a mulher é a líder. Junto com Simplício e Mudinho, personagem de Démick Lopes, vivem uma releitura do cangaço – que em sua definição tradicional segundo estudo de Maria Luiza Tapioca Silva  era um local que homens e mulheres obedeciam às normas estabelecidas e ofereciam parceria, confiança e fidelidade entre os membros. Maria, Simplício e Mudinho se uniram para proteger uns aos outros e também vingarem do poderoso Pedro Gouveia. Mesmo sendo inexperiente na região, Maria despenha papel de elo e liderança no grupo.

“Onde Nascem os Fortes” traz duas personagens femininas muito fortes, mãe e filha que buscam cada uma de sua maneira lutar pela história de Nonato. Enquanto Cássia vai atrás dos meios legais, aproveita seu tempo na busca por melhorar a vida das famílias que vivem na seca. Devido a sua própria experiência pessoal, Cássia é articulada e mais racional do que a filha, por mais que sinta o medo de perder os dois filhos a consuma por completo, consegue agir de maneira mais fria e consciente. O fato de ter criado os gêmeos sozinha faz com que ela aja como uma leoa, que busca defender seus filhos das calúnias que circulam pelo sertão. Essa força interna da personagem também reflete diretamente na personalidade valente de Maria.

Até o momento a supersérie nos mostrou uma protagonista sem medo de enfrentar as sombras de seu caminho. Ciente de sua sexualidade, inteligência e de articulação, Maria acredita que os fins justificam os meios em busca de justiça. Uma anti-heroína porreta e repleta de atitude, que não se deixa abater pelas ações de seus algozes. Talvez por isso, ela seja uma protagonista tão corajosa que faz com que o público torça por sua felicidade e consiga vencer o seco sertão dominado pelos seus figurões conservadores e totalitários.