O Sétimo Guardião: O realismo fantástico do século XXI

Aguinaldo Silva é um autor de novelas extremamente experiente, um dos mais importantes da sua geração. Foi um dos responsáveis por continuar experimentando e testando novidades, permitindo que a telenovela brasileira continue sendo uma referência tal qual ela é hoje. Entretanto o gênero não é mais absoluto no país e muitos telespectadores migraram para outras narrativas audiovisuais, especialmente as séries. Aguinaldo é um profissional atento às tendências de mercado. Inclusive em sua entrevista ao livro “Autores” da TV Globo de 2008, ele já cita série americanas, como Grey’s Anatomy e Família Soprano, como fontes de inspiração e estudo.

Longe das novelas desde Império (2014), o novelista foge completamente da curva das tramas realistas e urbanas vistas na faixa das 20h/21h nos últimos quinze anos e retorna ao realismo fantástico em O Sétimo Guardião. Fiquei animado ao saber que seria resgatada uma característica que marcou suas telenovelas nos anos 1980 e 1990, entretanto ao terminar de assistir o capítulo pelo Globoplay, senti que não vi aquilo que esperava. Entretanto isso não significa que isso seja ruim, muito pelo contrário. Evidentemente que existia uma expectativa de um envelopagem semelhante a de Tieta (1989) e, principalmente, de A Indomada (1997), mas o que nos foi entregue foi um amadurecimento da fórmula, agora bebericando em novas referências, principalmente de séries, como Stranger Things (como citado no texto de Nilson Xavier). A repaginação do realismo fantástico é intencional, pois obviamente ele ainda trará os tipos clássicos (como a beata, a cafetina, o padre, o prefeito etc) para poder fisgar o cativo público, mas ele aprofundará o elemento misterioso através dos guardiões e do gato León para poder trazer um novo telespectador, que está entretido com os seriados. Essa atualização vem com o avanço dos recursos tecnológicos, que permitem que cenas como a da mão saindo da xícara sejam mais realistas e bem feitas, além da própria evolução da própria telenovela brasileira, que está cada vez mais esteticamente próxima com o cinema, pois se utiliza de iluminação, enquadramentos e movimentações de câmera ainda mais refinados.

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Marina Ruy Barbosa em cena de “O Sétimo Guardião” (foto: reprodução/TV GLOBO)

Diferente dos apoteóticos primeiros capítulos de suas antecessoras, Segundo Sol O Outro Lado do Paraíso, que foram repletos de acontecimentos, que inclusive davam um falso ritmo frenético a trama, aqui em O Sétimo Guardião, Aguinaldo e o diretor Rogério Gomes abrem mão desse recurso, pois sabem que isso facilmente se esvazia nos capítulos seguintes. Por tal escolha, é possível que tenha ocorrido um estranhamento do público em relação a velocidade dos acontecimentos, afinal as cenas eram mais longas para poder criar a atmosfera de suspense e de terror. Por mais que toda essa estética parecesse de filme, ainda os recursos narrativos melodramáticos lá estavam presentes, como o casamento de Gabriel (Bruno Gagliasso) que não ocorreu, o trauma em relação ao abandono no altar da vilã Valentina (Lília Cabral), o ódio do pai da noiva Olavo (Tony Ramos), entre outros clichês dos folhetins. O casal de protagonistas formado por Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa ainda está se formando, até mesmo pela própria narrativa, pouco se viu deles, até mesmo de seus desafios, mas a cena final em que ela o desenterra foi uma maneira bem fora dos padrões de apresentar o casal de mocinhos juntos. Realmente algo bem inesperado, mas divertido e mostrando sim, que os folhetins eletrônicos podem escapar de seus clichês.

Como toda narrativa de realismo fantástico, o humor estará presente nos personagens secundários, sendo os responsáveis por trazerem a parte solar da narrativa. Neste primeiro capítulo, destaco a personagem de Letícia Spiller, Marilda. Com um sotaque formado de diversas regiões do país faz com que a diferencie dos demais personagens, além de seu estilo espalhafatoso, que obviamente entrará em conflito com a irmã Valentina. Falando em diferenciação, senti falta de alguma característica que demarcassem os personagens como moradores de Serro Azul, um sotaque que unisse todos, por exemplo, ficou faltando. Não digo incorporar um sotaque de alguma região específica, mas sim, ser criada uma pronúncia que estivesse na boca dos personagens, como o caso das palavras em inglês nos personagens de Greenville de A Indomada. 

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Bruno Gagliasso no final do primeiro capítulo (foto: reprodução/TV Globo)

O charme estético e o ar misterioso da trama são os principais chamarizes da trama. Quanto a história central, ainda é cedo para afirmar, afinal o foco do primeiro capítulo ficou na questão do surgimento do novo guardião. Entretanto a desistência do casamento de Gabriel soou fraca, pois ficou apenas na aparição do gato. Talvez precisássemos de mais tempo para ver a evolução dessa tomada de decisão do protagonista. Entretanto as tramas paralelas devem ser bem exploradas e parte delas já foram apresentadas, o que eu considero ser um ótimo sinal.

O Sétimo Guardião será uma homenagem e retomada ao realismo fantástico, agora repaginado. O autor convida o telespectador a embarcar em suas alegorias e crossovers com outras novelas, para que fuja da realidade e se deixe levar pelos mistérios dos guardiões. Veremos!

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Os guardiões (foto: reprodução/TV Globo)

Orgulho e Paixão: as vozes de quem resiste

Orgulho e Paixão chegou ao fim e deixou um monte de gente com o coração apertado. Sem grandes mistérios e reviravoltas, a novela conquistou o público exatamente pelo seu clima leve e descontraído, digno do horário das 18 horas. O trio Fred Mayrink (diretor), Marcos Bernstein e Victor Atherino (autores) têm do que se orgulhar. Inspirada em algumas obras da autora Jane Austen, a novela foi além e manteve a luta feminina forte e representativa do começo ao fim. Para momentos de firmeza, não temeu o horário e chamou atenção para a violência contra a mulher. Em momento leves, trouxe à telinha dois musicais, que surpreendeu e encantou o público. De tantas histórias, de tantas vozes, deixo aqui, cinco destaques da novela (mas conseguiria citar dez sem muitos esforços):

 

 

A história de Mariana

No início, a história da menina que precisou se vestir de homem para pode andar de motocicleta e competir (só era aceitável que homens fizessem isso) parecia um mero clichê, usado e abusado em diversas obras. Gil já premeditou: “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria…”. Mas o disfarce de Mário durou o tempo que ela julgou necessário para ganhar a própria confiança na motocicleta e ganhar a corrida. Inclusive, cena em que ela revela ser mulher. Poderosa. Corajosa. Intensa. Assim como a cena em que é agredida por um homem, e tem seus cabelos cortados. Assim como a cena em que revela o abuso e assume seus cabelos curtos (incomum para a época). Mariana existe pelo Brasil afora. Mas em Mariana também existe Chandelly (Braz, a atriz que deu vida à personagem). E Chandelly mais uma vez se mostrou grande.

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Mariana como Mário (foto: Divulgação/TV Globo)

 

A força de Julieta

De vilã a uma das personagens mais amadas da novela. Julieta foi a maior surpresa, a maior descoberta. Quem, no início da trama a via de roupas pretas, fechadas e com o ar de desprezo, jamais imaginaria que, tudo isso, era fruto de um abuso, ainda menina. De um só não, de vários. Já que teve que casar com o estuprador. Como ela mesma se classificou (em uma cena com Mariana), Julieta pertence ao grupo das sobreviventes, e viveu inúmeras cenas dramáticas durante a novela (principalmente quando conta para seu amado Aurélio e para o filho Camilo, tudo que sofreu). Mas Julieta encontrou no amor o recomeço. E descobriu que falar, ajuda. Que denunciar é necessário. Julieta não sabe, mas até hoje as mulheres precisam de força até para denunciar. Julieta existe porque Gabriela Duarte também existe, e merece todo o mérito.

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Julieta em cena de “Orgulho e Paixão” (foto: divulgação/TV Globo)

 

Inúmeras e únicas: as irmãs Beneditos

Desde o começo da novela, dona Ofélia (vivida pela grande Vera Ortiz) sonhava só com uma coisa: que suas filhas casassem. O que ela não imaginava é que suas meninas viveriam muito mais que isso durante a suas trajetórias. Dentro das cinco “beneditos” havia mulheres fortes, destemidas, curiosas, desbravadoras e também, doces. Tenho certeza que cada telespectadora se reconheceu em alguma, ou em muitas delas.

 

A força pelo trabalho

Teve quem sempre desejasse trabalhar, como Elisabeta. E também teve quem nunca se viu trabalhando, como Ema. Mas teve também aqueles que, do começo ao final da trama, fizeram do trabalho a força motriz de sua vida, como Mariko e Januário. Descendente de japoneses, Mariko era uma das poucas mulheres médicas e sofria inúmeros preconceitos por conta do gênero e também por sua origem. E Januário, descendente de pessoas que foram escravizadas, o pintor lutou muito para que além de sua cor, sua profissão fosse respeitada. Ambos finalizaram a novela como os grandes vencedores merecem.

 

#LUTÁVIO

Além do feminino, Orgulho e Paixão ainda tem outra marca: protagonizou o primeiro beijo gay no horário das 18 horas. A gente se alegra, mas sabemos que isso já devia ser “regra” há muito tempo. #Lutávio (nome criado pelos fãs do casal) encantou o público com a sensibilidade de seus personagens e modo com que cada um deles foi sendo vencido pela força do amor.

 

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Casal Lutávio, como apelidado pelos fãs nas redes sociais (foto: divulgação/TV Globo)

DIVULGAÇÃO/GLOBO

 

Em uma mistura entre o mau e o cômico, eu não poderia deixar de citar o prazer que tivemos de conhecer a bela dupla que Alessandra Negrini e Grace Giannoukas formam juntas. Do primeiro ao último capítulo, elas não perderam o fio e nos levaram aos risos, em meio ao ódio (mas, será que a gente odiou elas mesmo?).

Talvez Orgulho e Paixãonão seja e não se torne uma das novelas mais marcantes do horário das 18h. Tristeza maior é que esse horário não seja tão “famoso” quanto o das 21 horas. Mas, mesmo assim, concorre com força a melhor novela do ano. Em tempos de tanta luta das mulheres, a novela veio em um importantíssimo momento.

 

“Aqui, no Vale do Café (…) temos mulheres que, mais do que serem aquilo que supostamente nasceram para ser ou fazer, são o que querem ser…”

Elisabeta Benedito

Autora do texto:

Mariana VirgílioMariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente).

 

Primeiro Capítulo: E se você viesse do passado?

Imagine a seguinte coisa: e se você acordasse e simplesmente não soubesse sobre a abolição da escravatura, não soubesse que o homem pisou na Lua, não conhecesse televisão, internet, celular, não conhecesse carros e aviões? Resumindo, e se você dormisse por 132 anos? Como você reagiria a todas essas novidades? Essa é o questionamento que a nova novela das 19h está aí para te fazer.

 

“Então isso é o futuro?” – Marocas.

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Elenco de “O Tempo Não Para”. (foto: divulgação/TV Globo)

A história de Mario Teixeira (autor de Liberdade, Liberdadee I love Paraisópolis) e direção geral de Marcelo Travessos, tem como tema principal a família Sabino, que é congelada por 132 anos, e acorda em plena cidade de São Paulo, em 2018. Os integrantes desse grupo são: o pai, Dom Sabino, a mãe, Dona Agustina, as filhas Marocas e as gêmeas Nico e Kiki, e os empregados da família: Miss Celine, Menelau, Damásia, Cairu, Bento, Cesária, Cecílio, Teófilo e o cachorro Pirata.

 

“Que abolição é essa que um homem da sua estatura tem que vasculhar o lixo para comprar um pedaço de pão?” – Dom Sabino.

 

O primeiro capítulo

Neste primeiro capítulo conhecemos a família de Dom Sabino e principalmente, o temperamento compreensivo, mas forte da primogênita, Marocas. Espevitada, a menina arruma uma baita confusão: no dia do seu baile de apresentação é vista nua (para nós, os contemporâneos, com uma camisola, quase um vestido longo) por Bento – um recém-formado em direito e poeta revolucionário.

Para livrá-la da desonra, Dom Sabino incentiva a filha a se casar com Bento, mas ela recusa e é nesse momento que eles têm a emocionante conversa:

 

“O senhor fez de mim o filho homem que sempre quis ter. Respeite-me, meu pai, porque eu sou o que o senhor fez de mim.” – Marocas

 

Como uma segunda alternativa, Dom Sabino resolve viajar com a família, para que com o tempo, toda a comunidade se esqueça do acontecido com a filha. E é nessa viagem que ocorre o inesperado: o navio para por uma turbulência e afunda.

Como toda novela que se preze precisa de uma romance, em um salto para o século XXI, o bloco de gelo é encontrado no mar e os protagonistas têm seu primeiro encontro: o bloco de gelo de Marocas se solta e ela afunda, sendo regastada pelo empresário Samuca.

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foto: divulgação/TV Globo

Temática ousada

Com a mistura de romance e uma pitada de ficção científica, “O Tempo Não Para” aposta em uma história ousada, com adereços que fogem dos fatos considerados “reais” pela sociedade. Não que isso seja algo ruim, pelo contrário, é uma bela oportunidade de inovação e afinal, esse também é um dos objetivos de uma novela: transportar o telespectador para outra realidade e fazê-lo pensar sobre a vida, de inúmeras possibilidades.

O que se espera é que o autor não se perca pelo caminho, como aconteceu em outras tramas da emissora (exemplo, Tempos Modernos) que apostou muito mais alto do que poderia e a trama acabou sem nenhuma marca registrada.

Avante ao século XXI, família Sabino. Infelizmente, se olharmos detalhadamente, alguns conceitos ainda não mudaram tanto. Mas estamos tentando.

Autora do texto:

Mariana VirgílioMariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente).

 

 

Enfrentamento do machismo e homofobia familiar foram os condutores da narrativa de “Onde Nascem os Fortes”

Depois de 53 capítulos de “Onde Nascem Os Fortes”, finalmente foi revelado o responsável pela morte de Nonato, o personagem de Marcos Pigossi. O assassinato do irmão gêmeo de Maria, vivida brilhantemente por Alice Wegmann, foi a força propulsora para todos os acontecimentos da trama, muito além disso, o crime impulsionou o desenvolvimento das narrativas de personagens femininas extremamente fortes, como a própria Maria e de sua mãe Cássia, papel de Patrícia Pillar, que enfrentaram o machismo de um lugar árido e tomado pela violência. A falta de respostas vinda de uma polícia completamente corrupta e ineficaz fizeram com que mãe e filha partissem para ação, cada uma com as suas próprias armas.

Como o próprio nome da série diz, o sertão é um lugar onde nascem aqueles que são mais resistentes. O ambiente seco, dominado pelos poderosos homens da lei e das terras mandam mais, afinal é com eles que estão o dinheiro, as armas, os capangas. Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg souberam conduzir isso perfeitamente, mostraram tão cruamente ao telespectador como funciona a manutenção do sistema autoritário em um lugar tão pobre, onde os jogos de interesses financeiro e político prevalecem em detrimento de qualquer lei. Por meio dos personagens rivais interpretados por Alexandre Nero e Fábio Assunção, respectivamente, Pedro Gouveia e Ramiro, essa luta de interesses foi demonstrada, em boa parte da narrativa. Ambos tiveram condutas condenáveis, entretanto as camadas humanas do personagem de Nero foram se sobressaindo, muito pela carinhosa figura paterna que tinha, enquanto o juiz de Sertão só revelava cada vez mais seu pensamento autoritário e conservador.

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Maria e Cássia, mãe e filha, em “Onde Nascem os Fortes” (foto: divulgação/TV Globo)

Cássia e Maria são filhas do sertão, ambas enfrentam esses homens da forma como acham mais conveniente para vencer a guerra pela ausência de respostas. A mãe dos gêmeos foca na experiência e na articulação, enquanto a filha pela própria imaturidade da vida age de forma mais impulsiva. O jeito como cada uma escolheu entrar no jogo é legítima. Afinal as duas precisam encarar o mesmo fator em comum: o machismo. No conservador sertão, mulheres como elas não são bem-vindas, muito menos bem acolhidas, inclusive elas fazem um contraponto com Rosinete, esposa de Pedro vivida por Débora Bloch. Mesmo sabendo da traição do marido, a mãe de Hermano e Aurora era a mulher dedicada a família e a um casamento falido, que vivia apenas para isso e esquecia de si mesma. Com o passar dos capítulos, Rosinete passa a se conscientizar dessa sua situação e toma novamente as rédeas de sua vida. Essa transformação fica bem clara em conversa com o seu filho, onde ela afirma ainda ser uma mulher e que possui suas vontades, mesmo depois de muito tempo negando-as. É impossível negar a influência de Cássia e Maria nas mulheres do seu em torno, mesmo que indiretamente.

A postura arrojada de Cássia foi o que atraiu Ramiro. O juiz da cidade ficou encantado pela personalidade marcante e destemida dela, aproveitando deste trunfo, ela passa a se relacionar com ele, pois através do relacionamento sabia que conseguiria vantagens, como acessar com mais facilidade o processo do assassinato do filho, como o julgamento de Maria. Entretanto esse local é perigoso, afinal Ramiro é uma alegoria do machismo, não só por possuir o poder da força bruta, política e da bala, mas pelo seu jeito irredutível e controlador, de um típico macho alfa. O caso entre os dois é abusivo, ele controlava os seus passos, as suas atitudes e a cercava de todos os modos, até por isso a empregou dentro do forúm.

O comportamento machista dele não se resume apenas com Cássia, mas principalmente com seu filho, Ramirinho, interpretado bravamente por Jesuíta Barbosa. O filho é mais um contraponto na trama, afinal ele é o completo oposto do pai, homossexual e drag queen. Motivo de vergonha do pai, que não o aceita, com isso a relação dos dois é frágil, pois Ramiro impõe que o menino seja “macho” e “forte”. Já Ramirinho sofre, órfão de mãe, deposita no pai a esperança de aceitação e amor, entretanto o único sentimento presente na relação é medo. Foram diversas as cenas que debateram o tema da homofobia no âmbito familiar, mas foi como Shakira do Sertão que Ramirinho pode enfrentar o seu pai e se mostrar como é. Deixo como referência, a belíssima passagem em que ele canta montado na frente do fórum da cidade, assim deixando claro o seu posicionamento perante a sua própria vida.

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Ramiro e filho em “Onde Nascem os Fortes” (foto: divulgação/TV Globo)

Em uma jogada de mestre, os escritores conseguiram fazer mais uma associação de entre a história principal e o drama de Ramirinho. Em mais um contraponto, o mulherengo Nonato foi vítima de homofobia. Em diversos capítulos, Maria reforçava a imagem de galanteador do irmão, isso já era de certa forma uma deixa para o que viria acontecer. Nonato foi morto por estar na hora e momento errados, mas além disso, vítima da não aceitação de Ramiro que forçou seu filho a matar aquele rapaz inocente. Os autores deixaram claro: homofobia mata sem ver a quem e as suas consequências são incontáveis.

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Ramirinho em cena do último capítulo de “Onde Nascem os Fortes”. (foto: divulgação/TV Globo)

Poderia passar aqui horas e horas fazendo análise dos diversos perfis, todos muito ricos e repletos de contradições. Como poucas vezes visto, “Onde Nascem os Fortes” trouxe personagens repletos de camadas, onde todas as suas atitudes eram justificadas, mesmo as mais cruéis. A direção impecável e sensível de José Luiz Villamarim, associada ao texto sútil de Moura e Goldenberg com um elenco afiado fizeram com o telespectador voltasse o seu olhar as questões mais humanas, como aceitação, maternidade, envelhecimento, traição, religião e poder.

Orgulho e Paixão: a luta feminina no agradável e agressivo interior

Minha primeira aproximação com Orgulho e Paixão foi por saber que seria inspirada no livro Orgulho e preconceito de Jane Austen, que já estava na minha lista há meses, e terminei-o quando a novela já tinha começado. Este romance não foi a única inspiração de Marcos Bernstein. O autor reuniu características de personagens e universos de outros livros de Jane, como: Emma, Razão e Sensibilidade, Lady Susan e Northanger Abbey. Mas, apesar de menos assistida que as obras anteriores do horário das 18h (ou 18h15 ou 18h30…) e ela vêm conquistando o público e terá mais duração que sua antecessora, Tempo de Amar.

Críticas à parte, a novela sobra em sensibilidade nas falas dos personagens, principalmente das personagens femininas. A maioria se reúne no interior, cidade fictícia chamada Vale do Café. Ambientada em 1910, expõe uma sociedade apegada a valores, sobrenomes e tradições. “Em uma época cheia de regras, elas faziam as delas” – já dizia a chamada da novela. É sobre elas e é nelas o seu ponto alto.  “Acho que as mulheres já conquistaram muitas coisas, mas elas estão em um momento onde elas precisam dessa inspiração, de mulheres poderosas, mulheres que vão à luta” – resumiu Gabriela Duarte na coletiva de lançamento da novela. Falando em Gabriela, é por ela que começamos a falar de nossas guerreiras.

 Julieta

Interpretada por Gabriela Duarte.

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Gabriela Duarte como Julieta (foto: divulgação/TV Globo)

“O senhor não sabe o que uma mulher como eu precisa aguentar, calada, para sobreviver nesse mundo de homens”.

Vítima de um estupro que a fez engravidar aos 16 anos, foi obrigada a casar-se com o agressor e criou, sozinha, o filho depois da morte do marido. Ainda construiu, sozinha, um império que muitos atribuem ao trabalho do marido, Ela, inclusive, assina com o seu sobrenome de casamento. Preciso dizer mais alguma coisa? Julieta, que para muitos é uma vilã, mostra o que anos de abuso físico e moral causam nas mulheres. Criou o filho por meio de uma distância amorosa e é constantemente subjulgada em reuniões de negócios com os homens. É dona do título Rainha do Café e vem desenvolvendo cenas de grande tensão. Ela por si só já daria uma análise.

 

Elisabeta

Interpretada por Natália Dill.

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Nathália Dill como Elisabeta (foto: divulgação/TV Globo)

“Eu acho que tenho o direito de viver minhas próprias experiências. (…) Eu desejo tudo que a vida tem a me oferecer.”

Protagonista da novela, Elisabeta deseja o mundo. Fugindo dos sonhos de sua mãe e irmãs, a mais velha dos Benedito luta para conseguir um emprego e recusa, por várias vezes, o pedido de casamento do homem que inclusive ela ama. Decidida, começa a escrever em um jornal de São Paulo histórias de mulheres batalhadoras e decide ter a primeira noite com o homem que ama mesmo sem se casar com ele (uma raridade pra época é válido lembrar).

 

Ema

Interpretada por Agatha Moreira.

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Ágatha Moreira como Ema (foto: divulgação/TV Globo)

“Nada está acima das pessoas que eu amo.”

A luta feminista não é contra o casamento, mas contra a falta de liberdade das escolhas das mulheres. A força de Ema é a prova disso. Casamenteira de plantão, ela é responsável por casar parte de suas amigas. Criada em uma família tradicional, bate no peito por defender seu sonho de se casar e cuidar da família. Tendo o casamento como prioridade, a baronesinha não perde em nada por pensar assim. Sua personagem é a prova de que liberdade é liberdade, seja em qualquer direção.

 

Jane

Interpretada por Pâmela Tomé.

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Pamela Tomé como Jane (foto: divulgação/TV Globo)

“Eu não abrigo maus sentimentos em meu coração”.

Jane é a personificação do sentimento de delicadeza. A sua maneira, ela não fica atrás das mulheres corajosas, mas segue a linha de seu coração e isso, não depõe contra a menina Benedito. Vindo de uma família de classe média, apaixonou-se logo no início da novela por um homem rico, lutou contra as exigências da época, casou-se e escolheu perder a virgindade com ele só depois da celebração. Para ajudar nas contas de casa, começou a trabalhar de lavadeira. É sutil, com um olhar fraternal e uma crença no outro insuperável. Jane comprova o poder das pessoas de coração.

 

Ludmila

Interpretada por Laila Zaid.

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Laila Zaid como Ludmila (foto: divulgação/TV Globo)

“Vou te mostrar como as tradições nos limitam”

Ludmila é a típica mulher moderna da época de 1910. Usa calça, em um mundo de saias e administra uma fábrica perante um conselho administrado por homens. Fuma, namora vários homens sem casar com eles e incentiva suas amigas e buscarem suas independências. É irônica, inteligente e com a língua bem afiada. É uma personagem secundária que, quando em cena, não deixa de ser notada.

Além das cinco aqui citadas, ainda temos muitas outras, e elas ainda irão aparecer. Orgulho e Paixão é transmitida de segunda a sábado, às 18h30, na TV Globo.

 

Autora do texto:

Mariana VirgílioMariana Virgílio é Jornalismo, capricorniana, noveleira e formada em Grey’s Anatomy por quatorze temporadas. Acredita no poder da Comunicação e no papel social do artista. É apaixonada por manifestações artísticas e, em paralelo à profissão, exerce a paixão pelo teatro e pela literatura. É uma dos seis escritores do livro “Pôquer a seis”, lançado em março de 2018 e escreve textos para a distopia Literalmente (https://medium.com/literalmente).

 

 

O Outro Lado de Sophia?

A personagem de Marieta Severo manipulou, mentiu e matou diversos personagens, mas a fica a dúvida se ela entrou para o hall das grandes vilãs da teledramaturgia nacional.

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Sophia (Marieta Severo) em seu julgamento nos último capítulos de “O Outro Lado do Paraíso” (foto: reprodução)

Desde as primeiras chamadas de “O Outro Lado do Paraíso”, foi mostrado ao público que a vilã de Marieta Severo, Sophia, não estaria para brincadeira. Junto de sua filha, Lívia, interpretada por Grazi Massafera, seriam as grandes vilãs responsáveis por transformar a vida da protagonista Clara, personagem de Bianca Bin, em um verdadeiro inferno. Sophia manteve a personalidade má e cruel durante toda trama, diferente de sua filha (não-filha), que amoleceu o coração após se apaixonar pelo garimpeiro, Mariano (Juliano Cazarré). Walcyr Carrasco garantiu o chapéu de vilã para Sophia e não tirou dela em momento algum.

Na história da teledramaturgia nacional, muitas vilãs eram mães e seus filhos eram responsáveis por demonstrar suas vulnerabilidades, vide casos de Nazaré Tedesco em “Senhora do Destino” e Perpétua em “Tieta”, entre outros. Entretanto Sophia não era uma delas, seus filhos e até mesmo o neto nunca passaram de meros instrumentos para seus planos de arrancar as minas de Clara e destruir todos aqueles que eram seus inimigos. Nos primeiros capítulos, ela já envenenava a cabeça do desequilibrado Gael, papel de Sérgio Guizé, que acabava bebendo demais e batendo na até então esposa, Clara. Lívia foi uma aliada apenas no começo da trama, principalmente com o roubo de Tomás, filho de Clara e Gael, que foi criado por ela como seu. A personagem de Grazi Massafera ajudou a mãe no plano de colocar Clara no manicômio, mas depois acabou virando presa fácil de Sophia, afinal era a megera que tinha a guarda oficial do menino Tomás. Por último, a renegada Estela, papel de Juliana Caldas, a filha anã de Sophia era odiada pela mãe devido a sua condição. Sem nenhuma melhora no relacionamento entre as duas, durante toda a trama, Sophia caçoou, xingou, brigou com a filha em diversos momentos, demonstrando nenhum tipo de carinho.

A falta de afeto da mãe para os filhos foi crucial para que o público visse a personagem como uma vilã de fato, típica de desenhos animados. A família da personagem representava apenas um meio para obtenção de seus objetivos, não só por cada um desempenhar uma função estratégica em suas artimanhas, como também formavam um clã apresentável para a sociedade de Palmas. A exclusão da filha anã era proposital, afinal ela na cabeça da mãe e da preconceituosa alta sociedade local, Estela sujava o glamour que os Montserrat representavam.

 

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Lívia (Grazi Massafera), Sophia (Marieta Severo), Gael (Sérgio Guizé, Estela (Juliana Caldas) – centro. (Foto: divulgação/TV Globo)

 

Muito de sua personalidade combinada com o passado sofrido, Sophia sabia se colocar em uma posição de liderança, principalmente perante aos homens. Ela disputava poder com eles de igual para igual, muitas vezes, em um lugar superior ao deles. Em Palmas, Sophia comandava uma verdadeira quadrilha que favorecia suas falcatruas, tinha em suas mãos o juiz Gustavo (Luís Melo), o delegado Vinicius (Flávio Tolezani) e o psiquiatra Samuel (Eriberto Leão). Todos de alguma forma estavam presos nas mãos dela, que sabia chantageá-los muito bem para não precisar pagar pelos seus atos ilícitos. A megera não jogava de frente apenas com os grandes figurões, devido ao seu passado na prostituição, aprendeu a como lidar com os mais diferentes tipos, facilitando assim a sua forma de administrar tão bem o garimpo, durante uma boa parte da narrativa. Sophia passava muito tempo com seus garimpeiros, chegava inclusive a beber e jogar cartas com eles. Ela não só se divertia, como também adorava dar o golpe neles, para que pudesse mantê-los ainda mais próximos à ela, sem nenhuma tentativa de escapatória. Sophia fazia jus a ao ditado “o gado só engorda aos olhos de seu dono”, portanto vivia em Pedra Santa de olho em suas esmeraldas. Seus atos eram boa parte premeditados, por isso sempre estava perto das minas para não ser roubada pelos seus funcionários. Com muito jogo de cintura e firmeza, ela conseguiu impor respeito na mina e quem trabalhava nela. Mesmo em um ambiente extremamente machista, Sophia contornou a situação ao seu favor, fazendo com que ela se tornasse cada vez mais poderosa e temida. Marieta Severo soube imprimir esse tom irônico e sarcástico na personagem de maneira brilhante, sem que isso soasse falso, mas sim reforçando o status da vilã.

A antagonista de “O Outro Lado do Paraíso” não apresentava fraquezas ou traços de humanidade em seu caráter. A durona Sophia permaneceu assim durante toda a trama, até mesmo em seu julgamento final com o rosto paralisado por um AVC, não teve sua resistente carcaça desmoronada (apenas com o veredito final, que mostrou mais uma vez o seu descontrole). Se com a família e o trabalho, ela não demonstrava nenhum sentimento, um dos poucos momentos que foi registrado essa fragilidade foi durante o seu relacionamento com o chefe do garimpo, Mariano. As idas e vindas do casal foram responsáveis por diversos atritos e até questionamentos internos de Sophia, muitas vezes relacionado a sua beleza e idade, afinal era bem mais velha que seu amante. Entretanto viu seu mundo desmoronar quando descobriu que Mariano não tinha mais interesse nela, mas sim em sua filha Lívia. A derrocada de Sophia começa a partir deste momento, afinal ela se deixa levar por um amor o qual não é correspondida. Com o namoro entre Lívia e Mariano, Sophia rompe relações com a falsa filha, que acaba se virando contra a mãe.

A novela de Walcyr Carrasco foi construída de forma bem maniqueísta, em boa parte do tempo. A vingança da protagonista Clara, mesmo com algumas cargas de anti-heroísmo devido aos seus planos mirabolantes, não fizeram com que a personagem se perdesse em sua própria sede de fazer justiça com as próprias mãos, como o ocorreu com Nina, a personagem de Débora Falabella em “Avenida Brasil”. Clara foi boa em toda a novela, sofrendo em um quarteto amoroso, disputando judicialmente a guarda do filho e o carinho dele, entre outras coisas, a personagem sofreu sofreu sofreu como uma mocinha clássica do folhetim. Já Sophia foi uma vilã digna de desenho animado. Maldosa em todos os momentos, a personagem só pensava em esmeraldas e destruir a vida de Clara, qualquer outra ideia passava longe ou era pouco explorada pela mente doentia dela. Com uma tesoura na mão foi capaz de executar diversas pessoas (combinamos que nenhum deles de grande importância para o rumo da trama, exceto Mariano – que milagrosamente sobreviveu), em uma espécie de revival de Lívia Marine – a vilã da agulha vivida por Claudia Raia em “Salve Jorge”. Nesses assassinatos impulsivos, Sophia revelou que não aguentava mais a pressão na qual estava submetida. Se em um passado não tão distante, vimos vilões que causaram comoção no público por suas atitudes ambíguas de amor e ódio, como Carminha e Félix, Sophia só estimulou no público um sentimento: raiva. Portanto atingiu perfeitamente seu objetivo, afinal ninguém em hipótese alguma gostaria que a algoz de Clara se desse bem no final ou passasse por uma redenção.

Se em demais tramas, acompanhamos vilões com que pudéssemos criar algum tipo de identificação, com Sophia foi exatamente o oposto, desenvolvemos repulsa. Atingiu exatamente aquilo proposto pelo novelista. Em seu julgamento final, Sophia é diagnosticada como psicopata, infelizmente, uma conclusão rasa pelo o que a personagem representou, longe de apresentar uma psicopatia nos moldes de Flora, papel de Patrícia Pillar em “A Favorita”. A personagem de Marieta Severo foi desenvolvida pela forma mais clássica do folhetim, como um verdadeiro dramalhão, o autor determinou os bons e os ruins, separou o joio do trigo, com isso a vilã foi má o tempo, sem respiros. Em entrevista ao site GShow, Walcyr Carrasco confirmou que a novela retomou uma estrutura antiga, de um típico melodrama. Os mocinhos são bons até o final, enquanto os vilões são completamente mals e pagam pelos seus atos no final.

Se Sophia será lembrada no futuro como uma das grandes vilãs da teledramaturgia, apenas o tempo dirá. O que se pode concluir por enquanto é a importância do vilão no desenvolvimento do herói e como que ainda assim o melodrama clássico ainda tem espaço, e principalmente, força com o público brasileiro.

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Sophia
Marieta Severo como Sophia (foto: divulgação/TV Globo)